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Shunii é uma divindade do mal. Todos os sábados, os devotos devem lhe depositar oferendas, quase sempre na forma de alimentos como frutas, verduras e arroz. Essa é a única maneira de aplacá-lo e assim evitar suas ações maléficas. Não é difícil encontrar Shunii – sua figura grotesca, pintada de azul, ornamenta pequenos altares instalados em esquinas, ruas e praças na Índia, tanto nas grandes cidades como nos pequenos vilarejos. Famílias inteiras saem em procissão até os nichos com imagens de Shunii, que são fabricadas e distribuídas aos borbotões pelo país. Às vezes, é preciso recorrer aos serviços de um guru, que recebe donativos para oficiar cerimônias em homenagem à entidade. Feito o culto, as pessoas podem voltar sossegadas às suas casas, pois consideram-se a salvo dos infortúnios que podem ser provocados pela ira do deus mau. Pelo menos, até a semana seguinte, quando será preciso repetir o rito.
Assim como Shunii, dezenas de milhões de divindades são veneradas na Índia, uma nação com 1,1 bilhão de habitantes. Cerca de oitenta por cento dessa imensa população declara-se seguidora do hinduísmo – muito mais que um sistema religioso, trata-se de um conjunto de crenças, tradições e superstições tão diversificado como o povo indiano. Lá, convivem centenas de etnias e fala-se nada menos que duas mil línguas e dialetos. A presença cristã, minoritária, desperta sentimentos que vão desde a intolerância ao ódio puro e simples, expresso em atentados religiosos que vêm aumentando no país. Embora pratique um regime democrático e disponha de tecnologias avançadas, a Índia é uma nação que se rege por tradições ancestrais inalteradas em pleno século 21. A sociedade é dividida nas chamadas castas, sendo a maior delas a dos párias, reunindo indivíduos que vivem na pobreza absoluta e sequer devem ser tocados. Acredita-se na lei do carma, segundo a qual os sofrimentos são resultado de maus atos praticados em vidas anteriores. Por isso, os hindus devem conformar-se com seu destino, pois seria impossível mudá-lo, e aguardar melhor sorte num ciclo sucessivo de reencarnações.
Pois foi diante deste quadro de obscurantismo espiritual que a missionária brasileira Ana Maria Miranda Sarkar se deparou quando chegou pela primeira vez à Índia, em 1996. “Aquele era um mundo novo e assustador para mim. Fiquei perplexa com o semblante das pessoas, que pareciam acuadas”, lembra a carioca de 43 anos, que lidera o ministério Harvest Today (Colheita Hoje), uma organização não-governamental de orientação evangélica instalada em Dakshin Barasat, a 50 quilômetros de Calcutá – cidade indiana com mais de 16 milhões de habitantes e todas as mazelas de um mega-aglomerado urbano de Terceiro Mundo. Harvest Today é a concretização de um sonho missionário de Ana Maria e hoje atende mais de 300 famílias carentes, prestando assistência na área educacional e de saúde.
Criada no Evangelho, Ana Maria teve trajetória semelhante à de boa parte dos adolescentes e jovens crentes. “Eu vivia mais pela fé de meus pais”, lembra. Até que, aos 19 anos, o encontro genuíno com Cristo acabou mudando o rumo de sua vida. Após um período de intensas atividades na igreja que freqüentava, Ana sentiu um chamado missionário. “A princípio, acreditei que deveria seguir para a França”, conta. A fim de se preparar devidamente para a obra, ela fez cursos na área de missiologia, estudou idiomas e especializou-se em enfermagem. Mas seu campo não seria a iluminada Europa, e sim, uma das regiões mais pobres do mundo. “Certa vez, folheando uma revista, vi uma foto chocante. Mostrava uma criança indiana miserável, chorando ao lado do cadáver da mãe.” A partir dali, ela começou a buscar a orientação do Senhor e orar pela Índia. “Deus revelou que me daria aquela nação como herança”, frisa a missionária.
“Escravidão ao diabo” – Depois de um período no Reino Unido, afiando o inglês, Ana foi “espiar a terra”. Passou três meses na Índia, fazendo contatos com cristãos locais e estudando a melhor maneira de iniciar um trabalho social e evangelístico no país. A questão legal foi uma primeira barreira. Embora tenha se apresentado como profissional de saúde disposta a auxiliar a população local, só mesmo um milagre, no entender dela, tornou possível a obtenção de um visto para cinco anos. “Isso é muito raro de acontecer”, diz. Ligada à Igreja Presbiteriana Betânia, de Niterói (RJ), ela foi enviada definitivamente como obreira comissionada e instalou-se em um apartamentinho alugado em Calcutá. “Eu não conhecia ninguém ali e não falava nada em bengali. Caminhava pelas ruas, contemplando a dura vida que as pessoas levavam. Era de apertar o coração.” Sem saber exatamente o que fazer, começou a pedir a Deus que enviasse pessoas até ela. A súplica foi atendida na pessoa de Manju, uma adolescente que veio em busca de trabalho. Manju, paupérrima, vivia numa aldeia próxima. “Ela acabou ficando. Fazia pequenos serviços domésticos, comia comigo e me observava atentamente”, conta Ana.
A garota acabou se tornando o primeiro fruto do trabalho da missionária. “Em pouco tempo, ela aprendeu um pouco de inglês a partir das nossas conversas e de alguns dicionários de bengali que eu tinha. Um dia, comprei uma Bíblia em sua língua e dei a ela.” Ana Maria explica que o processo de evangelização de um indiano é longo e trabalhoso. “Não é nada fácil para uma pessoa que pratica o panteísmo aceitar que deve adorar um só Deus”, explica. “É preciso conquistar sua confiança e desenvolver uma amizade.” Pois foi com esta fórmula que Ana levou Manju à conversão a Cristo. Logo depois, surgiu um rapaz interessado em aprender inglês. Percebendo a oportunidade, a missionária abriu um curso que atraiu outros jovens. “Um belo dia, quatro meninas maltrapilhas bateram à porta mendigando comida. O estado delas era deplorável, tive que controlar a ânsia de vômito”, admite. Mesmo contando apenas com a bolsa mensal de US$ 1 mil fornecida por sua igreja e ofertas eventuais, Ana Maria comprou-lhes roupas, um kit básico de higiene e comida.
Em pouco tempo, o apartamento já abrigava o curso de inglês, uma escolinha bíblica para crianças e uma improvisada clínica. Cada vez mais pessoas apareciam em busca de ajuda material – mas uma outra clientela chamou a atenção de Ana Maria: a de mulheres desesperadas com a própria realidade. “As meninas, principalmente, sofrem muito na sociedade indiana. A cultura local privilegia a figura masculina. As mães que têm filhas são discriminadas; afinal, meninas são um peso para suas famílias, que precisam pagar dotes aos futuros maridos.” A obreira brasileira conviveu com crianças abandonadas, mulheres violentadas e esposas espancadas pelos próprios companheiros. “Ao contrário do que muitos ocidentais imaginam, os indianos não vivem naquela aura de espiritualidade exótica. O que existe é escravidão ao diabo, mesmo. O número de suicídios é enorme, assim como o de mortos pela fome e por doenças. O cheiro de corpos cremados é horrível”, afirma.
Passo de fé – Quando começou a visitar as famílias de “suas meninas”, como faz questão de dizer, Ana conheceu a aldeia de Dakshin Barasat, que se tornou uma espécie de cabeça de ponte de seu ministério. Ali, em meio à carência generalizada, ela encontrou espaço para montar uma clínica e uma escola. Os habitantes, muitos dos quais jamais haviam tomado um antibiótico, aglomeravam-se à porta. “Havia muito o que fazer. Eu dava vitaminas, fazia pequenos curativos, ensinava hábitos de higiene.” Um médico local, também cristão, foi contratado para os atendimentos mais complexos. Centenas de pessoas apareciam a cada dia. “Eu as atendia e orava por todos em nome de Jesus. Logo, a casa ficou conhecida como ‘hospital de Jesus’”. Àquela altura, uma equipe de obreiros locais, frutos da missão, já colaborava com o serviço. Surgiu uma igreja. “Descobrimos estabelecimentos que vendiam comida e remédios mais baratos. Aquecemos até a economia local”, brinca.
Mas além de abrir corações para a Palavra de Deus, o ministério também era um risco para Ana. Grupos de religiosos radicais, tanto hindus como muçulmanos, insatisfeitos com o florescimento do trabalho cristão, passaram a intimidar a missionária. Um dia, no trajeto entre Calcutá e a aldeia, Ana Maria foi jogada do trem. “Só não fiquei paraplégica por milagre, pois fraturei várias vértebras”, conta. Sem ninguém para socorrê-la – o hinduísmo inspira nas pessoas um fatalismo que beira a indiferença –, ela se deslocou sozinha até o hospital mais próximo, muitos quilômetros e estações depois. Com a saúde e o ânimo abalados, ela confessa que pensou em desistir. “Os medos que me assaltaram na minha chegada à Índia voltaram com mais força. Mas sentia o Senhor confirmando meu ministério naquele lugar”, lembra, emocionada.
De volta ao Brasil para um período de recuperação, Ana Maria foi informada de que sua igreja não a manteria mais. “Meu pastor, temendo por minha vida, disse que eu não voltaria sob sua responsabilidade.” O jeito foi tomar uma atitude de fé e retornar mesmo sem garantia de sustento, já que as ofertas que apareciam não seriam suficientes para manter tudo funcionando. Mas a providência divina veio na forma da solidariedade de um alto funcionário do governo indiano, já aposentado, que conheceu o trabalho da brasileira e ofereceu-lhe apoio para institucionalizar o ministério. “Até então, funcionávamos em uma base improvisada. A legalização nos capacitou a fazer convênios com outras entidades.” O retorno à terra que passou a amar também teve outras surpresas para Ana. Um cristão que a conhecera havia mais de três anos a pediu em casamento. “Relutei um pouco”, conta, meio encabulada, “mas percebi naquilo a vontade do Senhor para minha vida.” A união com Malay Sarkar proporcionou a Ana a cidadania indiana e a garantia da permanência no país. “Antes, era preciso sair e retornar para renovar o visto, um processo cansativo e dispendioso. Agora, isso acabou”, comemora.
A trajetória de fé de Ana Maria a tornou conhecida e requisitada. Ela já esteve nos Estados Unidos, na Europa e até no Japão falando de seu trabalho. Em todas as ocasiões – como na temporada que passou no Brasil, entre dezembro de 2007 e março deste ano, visitando a família e percorrendo igrejas de vários estados –, fala da urgência do trabalho missionário entre povos não-alcançados e busca patrocinadores para Harvest Today. Pelo sistema da missão, é possível sustentar uma criança, dando-lhe educação, moradia e alimentação, com cerca de R$ 30 mensais. “Aqui, pode ser pouco, mas na realidade da Índia, é muito”, revela. Mais que auxílio, os assistidos pela missão ganham uma esperança. Para gente como a jovem Manju e milhares de outros indianos para quem o ministério de Ana representou a diferença entre a vida e a morte, Shunii e os milhões de deuses do panteão hindu não representam mais uma ameaça – pois eles, agora, podem descansar à sombra do Onipotente.
Fé em ação
A missão Harvest Today (Colheita Hoje) é um complexo de ação social e evangelística instalado na periferia de Calcutá, na Índia. Além de Escola Maranata de ensino fundamental – onde 300 alunos de tempo integral recebem três refeições diárias –, a entidade mantém uma clínica que atende cerca de 250 famílias da região. Há ainda cursos de inglês para crianças e jovens, núcleo de atividades comunitárias e uma igreja, a Casa Betânia. A missão abriga também cerca de 30 meninas e adolescentes rejeitadas pelas famílias. Atualmente, a missão conta com 26 obreiros de tempo integral e também com voluntários indianos e estrangeiros.
Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da missionária Ana Maria Miranda Sarkar e de Harvest Today pode fazer contato pelo e-mail ana_harvest@yahoo.com ou com a coordenadora no Brasil, Ormi Sardenberg, pelo e-mail ormisardenberg@ig.com.br
William Buck Bagby, foi missionário cristão pioneiro na implantação das missões batistas no Brasil e um dos principais colaboradores na luta pela liberdade religiosa em nosso país.
Precoce é a pessoa que faz alguma coisa antes do tempo esperado. É o caso do mineiro de Nanuque que se converteu aos 7 anos de idade durante uma escola bíblica de férias ministrada pela própria mãe; que se despertou para o trabalho missionário aos 14 anos ao ouvir uma pregação do próprio pai; que ingressou num seminário teológico logo após completar 18 anos; que se formou em teologia e casou-se um mês depois de comemorar o 23º aniversário; que arrumou as malas e se mudou com a esposa (ele com 26 anos e ela com 24) para uma aldeia bem no interior de um país africano para prestar assessoria à igreja Konkomba em Gana e consultoria antropológica e missiológica a países da África e da América do Sul; que traduziu o Novo Testamento inteiro para uma das línguas dos Konkomba em sete anos e meio; cujo nome já está no Who's Who in the World. Desde 2001, Ronaldo Almeida Lidório, 40 anos, casado com a enfermeira e obstetra Rossana Vivianne Gassett Lidório, 38, tem se dedicado ao plantio de igrejas, à análise lingüística e tradução da Bíblia e ao desenvolvimento humano e social na Amazônia indígena. O casal tem uma filha de 12 anos e um filho de 10, e mora
Ultimato - O que você é: missionário, missiólogo, antropólogo, indigenista?
Lidório - A convicção do chamado ministerial é o que enche meu coração. A antropologia e a missiologia são instrumentos de trabalho muito úteis em diversas situações e projetos, porém estar envolvido com a missão de Deus para a minha vida é insubstituível. Nas palavras de Woodford, títulos e funções não saciam nossa alma. Apenas a certeza de seguir o caminho de Deus o faz. Sou missionário.
Ultimato - A população indígena, que diminuía a cada ano no Brasil, voltou a crescer. Qual é a explicação?
Lidório - Calcula-se que havia 1,5 milhão de indígenas em 1500, os quais somam hoje pouco mais de 350.000, configurando um dos maiores processos etnofágicos nos últimos 500 anos. Porém, a população indígena, que diminuía a cada ano, voltou a crescer de forma animadora nas últimas décadas. A existência de programas de saúde que previnem e tratam as doenças em geral, e também as mais específicas como a malária, possuem uma contribuição acentuada. Programas de subsistência têm auxiliado ao prover mais proteínas e vitaminas em áreas indígenas onde o alimento se resumia quase que puramente ao carboidrato. A presença missionária também é responsável por inúmeros programas de desenvolvimento humano porém sua principal marca social é a valorização da língua materna, provendo grafia e gerando programas de alfabetização que asseguram a identidade lingüística e, conseqüentemente, cultural, em diversas etnias. Há casos, como o dos Dâw do Amazonas, em que os missionários da Associação Lingüística Evangélica Missionária (ALEM) realizaram um verdadeiro resgate lingüístico-cultural. Era uma etnia que pouco falava sua língua, vivia dispersa e excluída em um contexto urbano e quase perdera por completo sua identidade indígena. Ao encontrá-los hoje, vivendo em sua aldeia com alegria e dignidade, é visível o sentimento de cidadania e humanização. Falam sua língua com prazer e a ensinam aos seus filhos. Viver sua própria cultura os define como gente perante um universo onde outros também expressam abertamente seus valores culturais. Identidade cultural faz bem à alma.
Ultimato - Entre os indígenas há algum controle de natalidade?
Lidório - De forma geral ter filhos é sinônimo de abundância e força social, portanto não há preocupação
Para os Tariano, pode-se também evitar uma gravidez indesejada através de poções xamânicas que funcionam como contraceptivos.
Ultimato - Você está fazendo o mapeamento da região amazônica. Qual a finalidade do mapeamento?
Lidório - Estou envolvido na pesquisa de algumas áreas. O objetivo central é identificar ajuntamentos humanos com graves carências sociais e espirituais. As estatísticas convencionais que definem os agrupamentos indígenas não expressam em profundidade a situação social, o índice de preservação lingüística, o relacionamento intercultural com outras etnias da região e com os não-indígenas, entre outros. Esses dados são importantes para o desenvolvimento de programas cujo objetivo seja contribuir de maneira relevante com esta realidade. A ONG ATINI, por exemplo, que luta contra o infanticídio que ocorre em abundância no contexto indígena brasileiro, é resultado de longa observação por parte da JOCUM dessa prática social entre o povo Suruwahá e outros grupos. A pesquisa ajuda-nos a identificar os pontos de tensão e a participar na solução de conflitos.
Ultimato - Quantos grupos indígenas temos hoje no território nacional? Pode haver outros?
Lidório - Os dados divergem de uma listagem para outra por considerarem, ou não, alguns grupos ainda não reconhecidos oficialmente como indígenas. Creio ser seguro, porém, pensarmos em 258 grupos indígenas com identidade definida no Brasil, além de outros cinqüenta ainda isolados. Grupos isolados são aqueles que não possuem contato com o mundo externo, e normalmente não se sabe se são uma variação cultural de um grupo já reconhecido ou se são novos. Muitos grupos indígenas estão em fase de extinção - extinção não necessariamente populacional, mas cultural e lingüística. Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista do Brasil, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Das línguas sul-americanas, 27% já não são aprendidas pelas crianças. Esta é uma extinção silenciosa que mata não apenas a língua mas também a identidade e a esperança de muitos povos.
Ultimato - Você é a favor da tradução da Bíblia para grupos lingüísticos reduzidos, com uma população de cem falantes, por exemplo? Por quê?
Lidório - O critério bíblico segundo o qual uma alma vale mais do que o mundo inteiro mostra que na economia de Deus a carência de um único indivíduo é o suficiente para qualquer esforço. E, se observarmos a tradução bíblica de perto, veremos que ela não é um processo isolado, mas uma atividade associada à grafia de uma língua, sua análise, desenvolvimento de cartilhas, alfabetização e fomentação de registros históricos e culturais pelo próprio povo, que contribuem para sua afirmação humana e social. Quando um povo lê a Bíblia em sua língua materna, este exercício possui um profundo valor tanto espiritual quanto sociocultural. Desta perspectiva, talvez a tradução bíblica seja ainda mais prioritária para os grupos minoritários, mais suscetíveis à perda lingüística e cultural, do que para os grandes grupos. Na África tivemos contato com o casal Stevenson, que traduzia a Bíblia para um grupo de quatorze pessoas cuja língua era uma variação lingüística dos Bikuln. Gastaram ali mais de 25 anos de suas vidas e, ao entregarem um dos livros do Novo Testamento nas mãos de um jovem da tribo, ele afirmou que entendera que o amor de Deus não é proporcional ao tamanho da tribo, pois Deus ama igualmente uma grande etnia e um pequeno grupo de quatorze pessoas. Creio que ele entendeu bem.
Ultimato - O sonho indígena de uma terra sem males pressupõe que os indígenas acreditam na vida após a morte? Eles têm alguma noção da ressurreição do corpo?
Lidório - Várias culturas indígenas possuem uma cosmologia definida pelo aquém e pelo além, a qual inclui o conceito de vida eterna em uma terra sem males. Esta cosmovisão mais escatológica da vida pode ser identificada não apenas entre os indígenas mas também em diversos outros grupos espalhados pela terra. Os Konkomba de Gana crêem que o pacham é um lugar para onde irão os que morrem já bem velhos e com muitos filhos. Os Chakali falam sobre o báthan como sendo o destino pós-morte de todo homem, sendo que aqueles que não enganaram o próximo terão comida
A convicção de uma terra sem males entre os indígenas brasileiros é, em alguns casos, tão enfática que pode ser relacionada como uma das possíveis causas da abundância de suicídios. Quando um jovem se vê sem saída, ou envergonhado, ou ainda profundamente melancólico, por vezes opta pelo suicídio, não apenas como uma maneira de fugir do conflito pelo qual passa, mas movido também pela convicção de que o mundo pós-morte será melhor, sem dor. Há poucos registros, porém, sobre crenças ligadas à ressurreição do corpo em culturas indígenas.
Ultimato - Onde você passa mais tempo: com a família, em Manaus; com os indígenas, em suas tribos; ou em viagem pelos rios da Amazônia?
Lidório - Neste ano nos mudamos para Manaus por ser um ponto central para nossas viagens e atividades no Norte. Como faço várias viagens por ano, dentro e fora do Amazonas, passo muito tempo fora de casa. As viagens fluviais na Amazônia são as mais longas, pois envolvem distâncias consideráveis. Porém aproveitamos bastante o tempo juntos
Ultimato - Como você se sente fora da chamada civilização, em plena mata, em contato com a beleza exuberante da natureza não poluída?
Lidório - Tanto na África quanto na Amazônia, o sentimento de estar em um lugar remoto com pouca intervenção humana é fascinante. Observar o verde intocado da Amazônia, por exemplo, nos faz pensar muito no poder de Deus, Criador de algo tão belo e cativante. No entanto, depois de viver nesses ambientes mais distantes por algum tempo, perde-se um pouco do romantismo e os desconfortos da privação das facilidades nas quais fomos criados passam a ser mais sentidos.
Em Gana, na África, passávamos até seis meses na aldeia viajando apenas duas vezes por ano para uma área urbana. Quando chegávamos à capital, Accra, meu maior prazer era apertar um interruptor e ver a luz acender. O de Rossana era abrir uma torneira e ter água corrente. Quando perguntávamos ao meu filho caçula, ainda pequenino, do que ele sentia falta na aldeia, ele respondia: Do McDonald's!
Ultimato - Segundo dados do governo, em 2005
Lidório - A destruição da floresta é assunto preocupante, porém não ocorre de maneira uniforme na Amazônia. Em algumas áreas indígenas, como no Alto Rio Negro, por exemplo, não é perceptível. Nos arredores de Porto Velho, Rondônia, é evidente. Creio que o problema está localizado especialmente próximo a centros urbanos, onde se escoa mais facilmente a madeira, e em setores de expansão agrícola, onde há grandes queimadas. Não creio que a Amazônia venha a ser independente justamente por sua importância nos cenários mundial e, conseqüentemente, nacional. Penso que o desenvolvimento da política de conservação ambiental só acontecerá quando ela for trabalhada com a população local - que é a única capaz de coibir o desmatamento, seja por não praticá-lo, seja por fiscalizar aqueles que o praticam. Políticas externas dissociadas de uma consciência local não surtirão efeito.
Ultimato - A relação entre a FUNAI e as missões indígenas está melhor agora?
Lidório - Minha impressão é que há uma boa relação que caminha para se consolidar. O trabalho da FUNAI é relevante e desafiador, tendo em mente a diversidade étnica indígena no Brasil e sua função de fiscalizá-la. Hoje vivemos um momento em que também cresce o movimento missionário formado pelos próprios indígenas. O CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Indígenas) tem demonstrado de forma acentuada essa força. Costumo dizer que a necessidade humana é a mesma, em qualquer cultura e contexto, e é preciso juntar forças para minimizá-la. Apenas a roupagem muda. Ao lembrar-me do indígena excluído e discriminado, sem alimento nem dignidade, nas margens do rio Solimões, percebo nele a mesma dor e constrangimento do rapaz urbano e também excluído, sentado na calçada em uma rua de Recife, invisível na multidão. Jesus, ao falar sobre um homem judeu caído ao longo do caminho e socorrido por um samaritano, nos aponta que as crises humanas são idênticas e ocorrem em qualquer sociedade. Muda apenas a roupagem externa, como língua, cultura, cosmovisão e contexto.
Ultimato - Quando o reitor do Seminário Presbiteriano do Norte sugeriu que você trancasse a matrícula e passasse um ano na África, para testar a sua vocação missionária, como você reagiu? Foi nessa ocasião que você começou a se interessar pela tradução do Novo Testamento na língua dos Konkomba de Gana e Togo?
Lidório - O rev. Francisco Leonardo é um homem de muita influência em minha vida. Sua conciliação de conhecimento teológico com piedade e vida cristã é marcante. Quando sugeriu que eu testasse minha vocação passando um ano na África juntamente com outro colega, Alfredo de Souza, recebi como uma oportunidade dada por Deus, pois poderia ver de perto missionários experientes que atuavam em plantio de igrejas, tradução da Bíblia e desenvolvimento social.
Esta experiência foi confirmadora e percebi que nada mais encheria meu coração. Ali, vendo o quanto a Palavra de Deus abençoa um povo, nasceu o desejo de trabalhar também com tradução bíblica. Certa ocasião vi uma família inteira, da etnia Balanta em Guiné-Bissau, sentada ao redor de uma fogueira numa noite sem luar, lendo atentamente alguns trechos sobre Jesus nos Evangelhos e traduzindo como lições para sua vida diária. Esta cena foi transformadora. Todos nós precisamos de Deus. Seja em uma floresta, seja em um condomínio fechado.
Ultimato - Qual foi o trabalho que você e Rossana desenvolveram em Gana na década de 90?
Lidório - Fomos para Gana em 1993 e lá permanecemos até 2001, quando viemos trabalhar na Amazônia. Na África atuamos com a etnia Konkomba-Limonkpeln, uma das quatro etnias Konkomba, com plantio de igrejas e tradução bíblica, e desenvolvimento de projetos sociais na área de educação e saúde. Pela graça de Deus há hoje ali 23 igrejas, pastoreadas por cinco pastores Konkomba. Várias delas foram plantadas por iniciativa do próprio povo. A clínica médica, que atende mais de 6 mil pessoas por ano, e as escolas, que educam mais de 400 crianças, são totalmente dirigidas pelos Konkomba.
Um dos ministérios naquele lugar que encheu nosso coração foi a tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln. Fomos despertados para essa necessidade porque no início os crentes vinham de aldeias distantes para participar de estudos bíblicos na aldeia onde morávamos, Koni. Passavam alguns dias conosco e memorizavam versículos que transmitiriam a outros. Uma mulher veio de Kadjokorá, uma aldeia que ficava a quatro dias de caminhada. Ela também memorizou os treze versículos e participou do encontro. Voltando para sua aldeia, depois de dois dias de caminhada, ela esqueceu um dos versos. Não pensou duas vezes. Voltou aonde estávamos e disse que estava ali porque a Palavra de Deus era preciosa demais para se perder ao longo do caminho. Memorizou de novo o verso e recomeçou sua jornada de quatro dias de caminhada para casa. Naquele momento nos comprometemos com a tradução do Novo Testamento para o Limonkpeln, que, pela graça de Deus, foi entregue em outubro de 2004 em uma linda festa com cerca de mil Konkombas louvando a Deus sob a sombra de algumas mangueiras.

"Era uma noite fria e com muita chuva na vila de Taipu. De repente, acordei com o som de um facão batendo em alguma coisa, e uma pessoa gritando: "Aqui o senhor não vai entrar!..."
Pulei rapidamente da cama, ainda meio sonolento e presenciei, na casa ao lado, um homem tentando golpear seu próprio filho com o facão. Este homem, chegando em casa embriagado, tentou violentar a filha de apenas dez anos. A mãe, pegando a menina, fugiu para a casa do filho buscando proteção. Ele então, inconformado, tomou o facão e foi atrás das duas, tentando invadir a casa do próprio filho.
Com muito cuidado, puxei o rapaz, afastando-o do perigo; enquanto outros moradores convenciam o velho a abandonar seus planos. Após alguns instantes, tudo aparentemente havia voltado ao normal.
Isto acabou abrindo a oportunidade de me aproximar do filho daquele homem, que está sendo evangelizado ..."
Este fato, relatado pelo missionário Reginaldo Menezes, que trabalha na região de Camamu (BA), mostra um lado terrível da cultura ribeirinha. Infelizmente, a maioria dos pescadores é dada à bebida, que tem causado muita destruição entre eles.
Outra triste verdade diz respeito ao senso de imoralidade que permeia suas mentes. A cada dia tomamos conhecimento de mais histórias como esta, onde meninas pequenas são vítimas de seus próprios pais e de outros familiares. O estado de pobreza em que vivem acaba favorecendo este tipo de situação, uma vez que é comum dormirem juntos em pequenos cômodos.
Não há outra fonte de liberdade para os pescadores, a não ser o Evangelho de Jesus Cristo. É por isso que continuamos insistindo com a igreja brasileira, para que atente para este grupo social ainda não alcançado. É necessário que haja um esforço em comum para que, juntos, como povo do Senhor, possamos dar a estas pessoas uma nova opção de vida.
Também não adianta evangelizá-los, se não estivermos prontos a nos sacrificar para minimizar algumas de suas carências mais comuns. Seria uma utopia dar evangelho e esconder as mãos. É um trabalho árduo, que exige dedicação e muito investimento; um verdadeiro desafio que, pela Graça do Senhor e pelo esforço comum do Seu povo, há de ser vencido, em nome de Jesus.
Você, que já tem tomado conhecimento deste ministério, está sendo desafiado a juntar-se a nós, para que possamos completar a obra que o Senhor nos chamou a realizar: Alcançar os pescadores artesanais de toda a costa brasileira.
Fonte: Missão Evangélica de Assistência aos Pescadores (MEAP) - http://meap.backsite.com.br

O que é o Domingo da Igreja Perseguida?
O Domingo da Igreja Perseguida (DIP) foi criado pelo Irmão André, fundador da Portas Abertas, com o objetivo de unir cristãos em torno de um só motivo: nossos irmãos e irmãs que pagam um alto preço por sua fé.
A data varia de ano em ano, pois é marcada para o domingo seguinte ao de Pentecostes. Este critério foi adotado porque, no relato bíblico em Atos 4, o início das perseguições aos cristãos acontece logo após a descida do Espírito Santo, com a prisão de Pedro e João. Simbolicamente, pode-se dizer que esta foi a "fundação" da Igreja Perseguida. Em 2008, o DIP acontecerá no dia 18 de maio.
Um dia inteiro de atividades: você escolhe a melhor para sua igreja
Em 2007, 1.350 igrejas participaram do DIP. Você, parceiro da Missão Portas Abertas, já pode organizar em sua igreja uma celebração especial para o próximo evento!
Um dia inteiro dedicado à oração e à lembrança desses irmãos que sofrem por sua fé! Irmãos que são exemplo de perseverança e de amor ao nosso Deus. As classes de escola dominical, as reuniões dos departamento e os cultos desse dia poderão ser inteiramente dedicados ao DIP.
Essa é uma oportunidade para envolver mais irmãos com a Igreja Perseguida e com a oração, por meio do relato de histórias e de variadas situações vividas por nossos irmãos perseguidos.
Qualquer dúvida ou para maiores esclarecimentos, ligue para (0--11) 5181 3330 ou envie um e-mail para dip@portasabertas.org.br .
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O que você faria se, viajando no seu automóvel, percebesse no painel do veiculo uma luz acesa indicando que a temperatura do motor está além do normal ?
· primeira possibilidade: você continuaria com o pé no acelerador, tranqüilamente;
· segunda, retiraria o fusível que possibilita aquela luz de se acender ou
· terceira, pararia o carro tão logo pudesse, tendo o cuidado de mantê-lo ligado para não trancar o motor ?
A questão é simples, os automóveis têm medidores que mostram como está a temperatura do motor, a carga da bateria, a quantidade de combustível no tanque, a velocidade do carro na pista, etc.
Ignorar os fatos que esses medidores mostram ao motorista, pode resultar em graves acidentes, e, quando não, em desagradáveis momentos.
Qual motorista, e parece que a maioria já passou por este momento, andou sorridente e satisfeito aqueles longos dois quilômetros atrás de um posto de gasolina, porque não prestou a atenção devida ou ignorou o que o medidor do combustível dizia ?
Sem contar que alguns caminharam aquela parte da estrada de noite e debaixo de chuva.
Mas, que tem a ver de interessante o painel de um automóvel para a com a caminhada missionária ? Tem muito a ver.
Na vida missionária ha também alguns medidores que, se ignorados, podem resultar em estresses desnecessários, desânimos, retornos, ferimentos de difícil recuperação, etc.
Todos nós, não importa quem somos, temos pelo menos três áreas que devem funcionar bem para avançarmos. E, mesmo que estejamos muito bem em duas delas se, apenas uma, for ignorada, pararemos na estrada, e nada alegres.
Atentemos para os três medidores: O medidor físico, o medidor emocional e o medidor espiritual.
O MEDIDOR FÍSICO:
Todo o homem, enquanto nesta terra, e, portanto, também o obreiro cristão, precisa de um corpo para existir e trabalhar.
Deus nos fez corpo, alma e espírito. Seria tolice pensar que podemos desenvolver nosso ministério sem uma dessas três partes. Logo, é sensatez questionar como esta o estado do nosso corpo, o que o seu medidor esta marcando.
Ha reservas ou as energias estão esgotadas ?
O missionário se expõe a desgastes físicos, dantes, desconhecidos:
O aprendizado de idiomas, - o contato com um povo diferente, - atividades que fogem dos horários normais de trabalho, - uma nova alimentação que pode refletir no seu desempenho físico, etc., alem do estresse natural das tarefas diárias.
O próprio fato de estar em um país que não o seu, o expõe a novas doenças que podem acometê-lo.
As diferenças do clima, da alimentação, condições de vida, poderão afetar, de uma forma ou outra, na saúde física do obreiro.Ignorar o mal funcionamento do organismo, uma doença, ou o simples cansaço semanal, pode levar o missionário de volta aa sua terra para, simplesmente, ter umas ferias para descanso ou um tempo de recuperação física.Mas, porque não, ainda no campo, o obreiro não considerar a importância do sono, do descanso físico, de um dia de descanso semanal, de uma alimentação balanceada, etc. ?!
Se o medidor físico esta mostrando que o corpo está sendo usado alem do que se deve, e é fácil perceber seu sinal, seu dono deve considerar “estacionar o veiculo para um descanso ou diminuir a marcha.”
A mãe está cansada da casa, o pai está cansado do escritório ou do movimento do centro da cidade, as crianças estão cansadas da escola e das tarefas de casa, todos se sentem esgotados e continuam acelerando o carro.
Quando a questão em foco é DESCANSO FÍSICO, estão buscando mais e mais atividades desconsiderando em que pode resultar todo esse esforço.
E, quando alguém da sinal de que não caminhara nem um metro a mais, vem os descansos programados, mas, mais para escaparem de uma situação constrangedora do que como uma filosofia de trabalho. No momento em que se puder mexer com os dedos, as atividades voltarão com todos os atrasos do descanso.
Ou então, muitos saem para um passeio com seus companheiros de trabalho e levam, cada qual, alem das cestas de lanche, todas as discussões que ficaram pendentes na ultima reunião da equipe.
Um complemento para o descanso físico pode estar, também, na própria companhia no lazer. Às vezes os missionários passam, toda a semana, em trabalho conjunto com um circulo de companheiros. E, quando saem para descansar, saem, sempre, com aquele grupo fechado. Não que seja negativo a unidade do grupo também no lazer, mas quantas vezes uma pitada de variação não traria um resultado melhor ?
Outra consideração sobre o descanso está no que fazer. Normalmente a esposa e filhos, devido ao tempo que ficam em casa, não se sentirão descansados em programas realizados no seu local de trabalho. Por outro lado, o marido passou a semana fora de casa e, no dia de descanso, sonha em poder dormir até mais tarde, um boa espreguiçada depois do almoço fará muito bem. Para que pais e filhos possam ter, realmente, um dia de descanso, deve-se levar em conta esses fatos para que uma parte da família não fique sempre no prejuízo.
Outra fonte de descanso pode estar na própria amizade cultivada entre marido e esposa, em escapes que podem ter juntos, depois de um dia de atividade. Mesmo que não fizesse isso todos os dias, mas o fato despercebido de que juntos e a sós, poderiam conversar livres dos ouvidos e participação dos pequenos, e já se sentiriam, sem dúvida, um tanto descansados.
Alem da questão do descanso físico, entra também o fato de uma alimentação correta. A alimentação do campo missionário nem sempre é o que se pode chamar de ideal. Pode faltar vitaminas necessárias para o corpo nos alimentos mais consumidos pelo povo em geral ou o missionário se limita a uma alimentação comprometedora em razão do que recebe no campo. Alem do mencionado acima, entra o fato das doenças e o obreiro deve encará-lo com sensatez.
Quais as doenças que ha no campo missionário ?
Ha medicação no caso de contraí-las ?
O obreiro esta fazendo a prevenção correta para não contraí-la, ou a esta menosprezando ?
Em suma, o fato e a saúde física comprometida, comprometerá a presença missionária no campo.
O SEGUNDO MEDIDOR QUE DEVEMOS OBSERVAR BEM É: O MEDIDOR EMOCIONAL:
Como estamos emocionalmente ?
O desgaste físico, o cansaço, os desafios do campo, as dificuldades de adaptação, as diferenças culturais, a falta dos resultados esperados, o processo de assentamento no campo, preparação de documentos, aluguel de casa, escola para as crianças, a adaptação com os da equipe de trabalho, essas e muitas outras facetas das atividades missionárias afetarão, de uma forma ou de outra, desgastando emocionalmente o obreiro e sua família.
Pode chegar o momento em que o obreiro ficará surpreso por suas reações com fatos que, antes, eram fontes de risos de si para si mesmo. Porque sempre riem do meu sotaque ?
Porque não posso errar um termo na língua deles ? Porque tenho que comer deste prato ?
Porque estão sempre na minha casa ? Já não agüento ouvir esta língua !
Que povo mais estranho!...Que forma de negociar mais esquisita! Porque comem deste jeito ?!
E aquelas curiosidades que o missionário colocava nas cartas de oração, logo que chegara ao campo, se tornaram ocasiões para debates ferrenhos com nacionais, entre marido e esposa, colegas de equipe ou outros obreiros que trabalham no país.
O missionário não agüenta sair na rua e se isola no seu escritório de trabalho e estudo. Pede para não receber pessoas ou se afasta dos locais onde possa ser encontrado.
A esposa corre para o mercado e passa horas e horas vendo vitrines. Perguntas inocentes ganham respostas mal educadas, a altura do dialogo no lar aumenta de volume ou o silencio toma o espaço do dialogo do inicio. A obrigação toma o lugar do coração voluntário.
O medidor emocional acendeu sua luzinha há muito tempo e o obreiro , ele, ela ou eles, não a consideraram ou crêem que este estilo de ser, faz parte de toda caminhada missionária e seguem avante, ferindo e sendo feridos.
Até quando agüentarão será só uma questão de tempo
O momento virá que, emocionalmente atrofiados e com um forte sentimento de vitima, se quedarão inertes e, muitas vezes, ressentidos. A gota d'agua que fará entornar o copo serão enfermidades que surgirão do nada, sem explicação aparente e, ao mesmo tempo, com graves e assustadores sintomas.
A saúde emocional desceu água abaixo e já afeta a saúde física que ecoa novamente nas emoções em frangalhos.
Os ecos desses dois pólos comprometidos é, antes de tudo, desastroso. O missionário não vigiou nos primeiros alertas que recebeu, desconsiderou princípios, valores, prioridades, não estabeleceu uma filosofia de trabalho, ignorou horários, não deu atenção as suas resistências, partiu para uma caminhada competitiva, trocou os papeis no lar, cobrou de si o que é obra do Espírito de Deus, não teve paciência de esperar, partiu para uma marcha estafante e, agora, se sente inútil, envergonhado, desiludo com o campo e com o trabalho missionário.
Se sente incompreendido e, quase que amargurado, se vê usado e descartado. Neste clima de derrota, o dialogo no lar perde espaço, e quando vem, surge na forma de acusações ou depreciações. E a situação se agrava. Os filhos não compreendem tudo o que está se passando, os familiares tomam partido, a igreja edita desiludida e não previa esses resultados. Algumas das igrejas cortam o apoio aos missionários
A recuperação emocional envolve mais tempo que uma recuperação física e o medico não será um clinico geral ou um psicólogo não cristão. E verdade que serão exigidos vários exames médicos, mas a recuperação emocional é feita sob o acompanhamento de cristãos maduros e leva mais tempo do que gostaríamos que levasse. Mas, não precisamos esperar que nos afundemos nessa areia movediça. No momento em que percebemos o medidor mostrando que alguma coisa esta errada no nosso viver emocional diário, devemos reavaliar nossas prioridades, valores, atitudes, princípios, papeis, e tudo o mais que o Espírito nos mostrar.
POIS BEM, O TERCEIRO É O MEDIDOR ESPIRITUAL:
O que faria sua luz acender-se no painel ?
Nada tocará mais na nossa consciência que a impureza do pecado. A falta de vigilância na vida crista terminará em tropeço que resultará em sinais na consciência mostrando que nem tudo vai tão bem quanto parece. E, uma consciência sem paz é um arrastar de pés. A vida crista é, antes de tudo, uma vida de comunhão com Deus. Tê-lo e amá-lo será o que podemos pensar como o leito do rio. E o rio que corre também será obra do Espírito Santo. Pecados serão obstruções que impedirão o fluir do Espírito, e, nessa caminhada, a vida do missionário se tornará seca, sem vida e infrutífera. Qualquer resultado aparente ali, em nada melhorará ou fará que Deus se torne complacente com uma vida desajustada espiritualmente.
Outra questão que torna a vida do crente um pingue-pongue espiritual é a maneira como ele trabalha na sua lista de valores.
Jesus nos ensinara que seu reino e sua justiça deveriam ser buscados em primeiro lugar. As demais coisas, nos disse Ele, seriam acrescentadas por Ele mesmo e em seguida. Logo, nossa preocupação real deve ser se seu reino fora ou não, com todos seus valores, implantados no nosso coração. E o seu reino, nos assegura o Mestre, não é isso ou aquilo, mas gozo, paz e alegria no Espírito Santo. Gozo, paz e alegria no Espírito. Eis uma vida saudável espiritualmente.
Nossa vida crista tem sido uma fonte de gozo ou caminhamos ressentidos com Deus, com a igreja e com os que nos cercam ?
A paz de Deus que excede todo o entendimento tem sido nossa passarela segura ou estamos tentando atravessar a rodovia temerosos e inseguros porque, na passarela, o Pai nos veria com facilidade? Por fim, a alegria do Senhor tem sido nossa força ou estamos correndo atrás de paliativos ou de mascaras que escondem um estado crítico de tristeza? O reino de Deus não é para ser apenas estabelecido em nosso coração. E, também, para ser vivido dia a dia. Outra consideração sobre nossa saúde espiritual está em como encaramos o valor da oração e da Palavra de Deus em nossa vida. Através da oração falamos com nosso Pai Celeste e ele nos reponde.
O corpo de Cristo, a igreja, deve saber das nossas necessidades a fim de nos acompanharem
Não que Ele já não saiba antes mesmo de orarmos. Não está a palavra na nossa língua, e Ele já a conhece.
Mas, o fato é que Ele estabeleceu princípios de relacionamento no qual ele espera que lhe contemos pessoalmente.
Outra fonte de saúde é a Palavra de Deus. Jesus deixou claro a importância da Palavra na nossa frutificação.
Ela nos limpa, nos lava, nos direciona, nos cura. O Espírito de Deus atua através da Palavra de Deus. Qual é o contato que temos com a Palavra do nosso Pai e qual é a atitude que temos ao lê-la? Seria sensato perguntar até que ponto amamos a sua lei, e se ela é nossa meditação todo o dia. Em suma, se queremos ter vida saudável espiritualmente, convém questionar qual tem sido nossa atitude para com a comunhão com Deus, para com sua Palavra, oração, nossa atitude para com os valores do reino, para com o pecado e uma vida de santidade.
Considerar os medidores Físico, Emocional e Espiritual, não é uma opção na caminhada missionária. E, sobretudo, um dever. Ignorá-los não será uma falta pequena, poderá devolver o missionário de volta a sua pátria em tristeza incontida ou em contumaz revolta. E, considerar o que os medidores dizem não é tarefa para especialistas.
Qualquer um sabe quando o cansaço bate a porta.
Todos sabem se o sono está sendo o bastante para a caminhada. Qualquer um percebe quando as emoções se descontrolaram e o tratamento para com os filhos, esposa, amigos de equipe e, sobretudo, para com povo alvo, se tornou de amigável para espinhoso. Ninguém é tão surdo que não possa ouvir a voz do Espírito Santo que avisa que tal e tal área da vida precisa de uma entrega total e definitiva. Mas, estaríamos todos abertos para dirigir nosso carro, considerando os medidores de temperatura, óleo, velocidade, e tudo o que for necessário? Ou queremos sentir o vento da velocidade batendo no nosso rosto e a alegria de termos, pelo nosso pé no acelerador e nossa mão ao volante, avançado alguns quilômetros na estrada da vida ?!
Se o carro fosse nosso e nós, os únicos no veiculo, todo o prejuízo resultante de qualquer insensatez seria unicamente nosso.
E verdade que nem isso justificaria nossas ações, mas de uma forma já limitaria os resultados do acidente.
Contudo, na caminhada missionária não estamos sozinhos. A igreja de Cristo segue conosco, há uma equipe que segue junto. Nossa família, esposa ou esposo, e filhos, estão conosco no campo. Enfim, é um sem numero de pessoas ligadas a nós.
Os próprios não cristãos estão de olho em nosso desempenho. Se ele parte para boas obras, Jesus disse que eles glorificariam ao Pai do céu. Se nosso desempenho parte para uma caminhada insensata, é certo que virá o escândalo. Que o Senhor nos ajude.
Baseado numa palestra do Pr.Eduardo Dudek a nossa equipe no Senegal.
Moises Suriba. Equipe da Missão Betania.
