“Uma vez que
conhecemos o temor ao Senhor, procuramos persuadir os homens. O que somos está
manifesto diante de Deus e esperamos que esteja manifesto também diante da
consciência de vocês. Não estamos tentando novamente recomendar-nos a vocês,
porém estamos dando a oportunidade de exultarem em nós, para que tenham o que
responder aos que se vangloriam das aparências e não do que está no coração. Se
enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é por amor a vocês. Pois
o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu
por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos para que aqueles que
vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e
ressuscitou. De modo que, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do
ponto de vista humano. Ainda que antes tenhamos considerado Cristo dessa forma,
agora já não o consideramos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova
criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” - 2
Coríntios 5:11-17
Descobrimos
neste parágrafo central a explicação do enigma da dedicação de missionários
como Paulo. As motivações que foram transparentes para ele, são desgastadas
para a grande maioria dos obreiros na seara do Senhor, hoje.
A primeira
motivação é o temor do Senhor (v. 11). Ele fala da reação enraizada no
conhecimento do julgamento por Cristo que todos teremos que enfrentar (v. 10).
A falta do temor do Senhor, que caracteriza a igreja evangélica moderna, se
deve em grande parte à "graça barata" que frequentemente se prega. O
perdão não custa nada, portanto o horror da desobediência ao onipotente Deus
desvanece. O aperfeiçoamento da nossa santificação ocorre onde o temor do
Senhor reside (2Co 7.1). Se experimentarmos o real temor do Senhor,
persuadiremos os homens (5.12). Se um alarme de fogo ressoa nos corredores de
um hotel ou de uma escola, e sabemos que é apenas um ensaio, não nos apressamos
para sair, nem tomamos cuidado. Porém, se surgir um cheiro de fumaça, se o
alarme não para de incomodar, se os ruídos dos carros de bombeiros cortam o
silêncio da noite e gritos de hóspedes ou alunos desesperados começam a ecoar
nos corredores, aí sim, o temor dominará.
Algo
semelhante motiva o coração de Paulo. Uma visão realista do futuro e a
condenação dos homens perdidos o incomodavam. "Tenho grande tristeza e
incessante dor no coração" são palavras que ele escolheu para
descrever esse incômodo (Rm 9.2). "Persuadimos aos homens" (v.
11) descreve como o apóstolo tentava mostrar a lógica do caminho da salvação
aos não-cristãos. Pelo relatório em Atos, sabemos que Paulo ensinava nas
sinagogas dos judeus em toda cidade em que queria implantar uma igreja. Usava
as Escrituras em que os judeus confiavam para mostrar que Jesus era o Messias
esperado e que ele precisava morrer e ressuscitar para cumprir as profecias (At
17.2,3; 1Co 15.3). Em Atos também, encontramos pregações de Paulo para
auditórios gentios (veja At 14.14-17; 17.16-31). Ele contextualizava suas
mensagens, citando poetas ou filósofos, para tornar mais persuasiva sua
palavra. Em Éfeso, Paulo apresentava diariamente os argumentos, favorecendo o
cristianismo na escola de Tirano (At 19.9). "Alguns deles foram
persuadidos", escreve Lucas, acerca dos gregos piedosos e mulheres
distintas que creram (At 17.4)
A segunda
motivação central para incentivar um compromisso com a missão é "o amor
de Cristo" (5.14). Do original não podemos saber se é o amor de Cristo
por nós ou de nós por Cristo. Provavelmente, não faz muita diferença neste
verso. O que importa é que seja um amor constrangedor, que exclui outros amores
que usualmente nos preocupam. Uma vez que o Espírito derramou o amor de Deus no
coração de Paulo (Rm 5.5), esses amores alheios cederam lugar ao seu amor por
Cristo (cf. 1Jo 4.10,19).
As
distinções na quantidade de amor que motiva os obreiros, têm sua explicação
nesse fator variável. Jesus quis enfatizar essa verdade, quando foi convidado
para ir à casa de um fariseu (Lc 7.36-47). Uma pecadora também entrou na casa.
Ficou aos pés de Jesus, regando-os com lágrimas, ungindo-os com unguento e
enxugando-os com os cabelos. Jesus notou que o fariseu não tinha dado o mínimo
da atenção esperada de um anfitrião. Jesus perguntou ao fariseu quem dentre os
dois devedores perdoados amava mais ao credor compassivo. A resposta óbvia era
quem foi perdoado mais. Então Jesus fez a aplicação. Acerca da mulher, ele
declarou "ela amou muito" (Lc 7.47).
Nada é mais
óbvio no ministério do que a diferenciação de intensidade de amor nos
missionários enviados para os campos. Um ministro de justiça, em Brasília,
amargamente comentou que, enquanto ele fosse responsável, não concederia nenhum
visto a missionário algum. Ficou amargurado, ao perceber que um missionário do
seu conhecimento veio ao Brasil, para criar gado e buscar riquezas. Faltou o
amor constrangedor de Cristo.
Acontece que
ainda que todos os pecadores salvos pela graça tenham recebido perdão, não são
todos que o apreciam com a mesma intensidade. Se o sentimento de indignidade e
merecimento de castigo for muito forte, o alívio do perdão constrange mais. O
amor cresce e emana do coração, com mais devoção.
Paulo
acrescenta um outro fator explicativo: a solidariedade de Cristo com os eleitos
em sua morte. "Um morreu por todos, logo todos morreram" (v.
14b). É um conceito pouco comentado, hoje, mas que é uma verdade central do
Novo Testamento (veja R. Shedd. A Solidariedade da Raça. S. Paulo: Ed.
Vida Nova, 1994, passim). A morte do Chefe ou Cabeça implica na morte de todos
que estão nele. Se não fosse assim, a morte vicária de Jesus não teria valor
algum para nos livrar da culpa ou inserir-nos no Corpo de Cristo. Tal como o
pecado de Adão incluiu a toda a raça, assim a obediência de Cristo salva a
todos que nele se abrigam.
É bom
lembrar que a morte de Cristo teve uma razão pouco reconhecida. Ele morreu por
todos, para que os que vivem (ressuscitados com ele pela fé) não vivam mais
para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (v.15). Jesus
padeceu para conquistar nosso egoísmo e para que sirvamos Aquele que deu a si
mesmo por nós. O esforço missionário, portanto, é uma consequência de uma
compreensão clara do significado da cruz. Assim como é irracional praticar a
fornicação porque não pertencemos a nós mesmos (1Co 6.19,20), o cristão depois
de ter morrido com Cristo, não tem uma existência independente.
Devemos
entender por que Paulo diz que "daqui por diante, a ninguém conhecemos
segundo a carne" (v. 16). A importância de cada homem ou mulher não
reside na sua raça, riqueza, inteligência ou talentos. O significado da
existência humana mudou totalmente com esta união com Cristo. Ser uma "nova
criatura" (ou criação, v. 17) implica no fato único: sua importância
para Deus e o seu reino. Depois da morte, teremos mudanças incríveis em nossa
maneira de avaliar as pessoas. Os heróis serão, seguramente, os humildes
desconhecidos (cf. Lc 16.25).
"As
cousas antigas já passaram" (v. 17b) quer dizer que as demandas da
velha aliança são substituídas pelas da nova. As novas cousas que regem a vida
do homem se resumem na nova ambição do verso 15, "Para que os que
vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu..."
A nova valorização daqueles que nenhuma importância têm para o mundo, mostra a
nova realidade do homem em Cristo. A nova criação se torna visível na igreja de
Jesus Cristo, a nova sociedade unida pelos laços de amor e do Espírito.
Russell Shedd
Capítulo do
livrete Missões: Vale a pena investir? (Shedd, 2001).

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