quinta-feira, 14 de maio de 2026

Temor e Amor motivam a Dedicação à Missão – Russell Shedd

 


“Uma vez que conhecemos o temor ao Senhor, procuramos persuadir os homens. O que somos está manifesto diante de Deus e esperamos que esteja manifesto também diante da consciência de vocês. Não estamos tentando novamente recomendar-nos a vocês, porém estamos dando a oportunidade de exultarem em nós, para que tenham o que responder aos que se vangloriam das aparências e não do que está no coração. Se enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é por amor a vocês. Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. De modo que, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista humano. Ainda que antes tenhamos considerado Cristo dessa forma, agora já não o consideramos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” - 2 Coríntios 5:11-17

 

Descobrimos neste parágrafo central a explicação do enigma da dedicação de missionários como Paulo. As motivações que foram transparentes para ele, são desgastadas para a grande maioria dos obreiros na seara do Senhor, hoje.

A primeira motivação é o temor do Senhor (v. 11). Ele fala da reação enraizada no conhecimento do julgamento por Cristo que todos teremos que enfrentar (v. 10). A falta do temor do Senhor, que caracteriza a igreja evangélica moderna, se deve em grande parte à "graça barata" que frequentemente se prega. O perdão não custa nada, portanto o horror da desobediência ao onipotente Deus desvanece. O aperfeiçoamento da nossa santificação ocorre onde o temor do Senhor reside (2Co 7.1). Se experimentarmos o real temor do Senhor, persuadiremos os homens (5.12). Se um alarme de fogo ressoa nos corredores de um hotel ou de uma escola, e sabemos que é apenas um ensaio, não nos apressamos para sair, nem tomamos cuidado. Porém, se surgir um cheiro de fumaça, se o alarme não para de incomodar, se os ruídos dos carros de bombeiros cortam o silêncio da noite e gritos de hóspedes ou alunos desesperados começam a ecoar nos corredores, aí sim, o temor dominará.

Algo semelhante motiva o coração de Paulo. Uma visão realista do futuro e a condenação dos homens perdidos o incomodavam. "Tenho grande tristeza e incessante dor no coração" são palavras que ele escolheu para descrever esse incômodo (Rm 9.2). "Persuadimos aos homens" (v. 11) descreve como o apóstolo tentava mostrar a lógica do caminho da salvação aos não-cristãos. Pelo relatório em Atos, sabemos que Paulo ensinava nas sinagogas dos judeus em toda cidade em que queria implantar uma igreja. Usava as Escrituras em que os judeus confiavam para mostrar que Jesus era o Messias esperado e que ele precisava morrer e ressuscitar para cumprir as profecias (At 17.2,3; 1Co 15.3). Em Atos também, encontramos pregações de Paulo para auditórios gentios (veja At 14.14-17; 17.16-31). Ele contextualizava suas mensagens, citando poetas ou filósofos, para tornar mais persuasiva sua palavra. Em Éfeso, Paulo apresentava diariamente os argumentos, favorecendo o cristianismo na escola de Tirano (At 19.9). "Alguns deles foram persuadidos", escreve Lucas, acerca dos gregos piedosos e mulheres distintas que creram (At 17.4)

A segunda motivação central para incentivar um compromisso com a missão é "o amor de Cristo" (5.14). Do original não podemos saber se é o amor de Cristo por nós ou de nós por Cristo. Provavelmente, não faz muita diferença neste verso. O que importa é que seja um amor constrangedor, que exclui outros amores que usualmente nos preocupam. Uma vez que o Espírito derramou o amor de Deus no coração de Paulo (Rm 5.5), esses amores alheios cederam lugar ao seu amor por Cristo (cf. 1Jo 4.10,19).

As distinções na quantidade de amor que motiva os obreiros, têm sua explicação nesse fator variável. Jesus quis enfatizar essa verdade, quando foi convidado para ir à casa de um fariseu (Lc 7.36-47). Uma pecadora também entrou na casa. Ficou aos pés de Jesus, regando-os com lágrimas, ungindo-os com unguento e enxugando-os com os cabelos. Jesus notou que o fariseu não tinha dado o mínimo da atenção esperada de um anfitrião. Jesus perguntou ao fariseu quem dentre os dois devedores perdoados amava mais ao credor compassivo. A resposta óbvia era quem foi perdoado mais. Então Jesus fez a aplicação. Acerca da mulher, ele declarou "ela amou muito" (Lc 7.47).

Nada é mais óbvio no ministério do que a diferenciação de intensidade de amor nos missionários enviados para os campos. Um ministro de justiça, em Brasília, amargamente comentou que, enquanto ele fosse responsável, não concederia nenhum visto a missionário algum. Ficou amargurado, ao perceber que um missionário do seu conhecimento veio ao Brasil, para criar gado e buscar riquezas. Faltou o amor constrangedor de Cristo.

Acontece que ainda que todos os pecadores salvos pela graça tenham recebido perdão, não são todos que o apreciam com a mesma intensidade. Se o sentimento de indignidade e merecimento de castigo for muito forte, o alívio do perdão constrange mais. O amor cresce e emana do coração, com mais devoção.

Paulo acrescenta um outro fator explicativo: a solidariedade de Cristo com os eleitos em sua morte. "Um morreu por todos, logo todos morreram" (v. 14b). É um conceito pouco comentado, hoje, mas que é uma verdade central do Novo Testamento (veja R. Shedd. A Solidariedade da Raça. S. Paulo: Ed. Vida Nova, 1994, passim). A morte do Chefe ou Cabeça implica na morte de todos que estão nele. Se não fosse assim, a morte vicária de Jesus não teria valor algum para nos livrar da culpa ou inserir-nos no Corpo de Cristo. Tal como o pecado de Adão incluiu a toda a raça, assim a obediência de Cristo salva a todos que nele se abrigam.

É bom lembrar que a morte de Cristo teve uma razão pouco reconhecida. Ele morreu por todos, para que os que vivem (ressuscitados com ele pela fé) não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (v.15). Jesus padeceu para conquistar nosso egoísmo e para que sirvamos Aquele que deu a si mesmo por nós. O esforço missionário, portanto, é uma consequência de uma compreensão clara do significado da cruz. Assim como é irracional praticar a fornicação porque não pertencemos a nós mesmos (1Co 6.19,20), o cristão depois de ter morrido com Cristo, não tem uma existência independente.

Devemos entender por que Paulo diz que "daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne" (v. 16). A importância de cada homem ou mulher não reside na sua raça, riqueza, inteligência ou talentos. O significado da existência humana mudou totalmente com esta união com Cristo. Ser uma "nova criatura" (ou criação, v. 17) implica no fato único: sua importância para Deus e o seu reino. Depois da morte, teremos mudanças incríveis em nossa maneira de avaliar as pessoas. Os heróis serão, seguramente, os humildes desconhecidos (cf. Lc 16.25).

"As cousas antigas já passaram" (v. 17b) quer dizer que as demandas da velha aliança são substituídas pelas da nova. As novas cousas que regem a vida do homem se resumem na nova ambição do verso 15, "Para que os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu..." A nova valorização daqueles que nenhuma importância têm para o mundo, mostra a nova realidade do homem em Cristo. A nova criação se torna visível na igreja de Jesus Cristo, a nova sociedade unida pelos laços de amor e do Espírito.

Russell Shedd

Capítulo do livrete Missões: Vale a pena investir? (Shedd, 2001).

 

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