O JUDEU
QUE PAROU DE ERRAR
Salomão L.
Ginsburg é um nome que jamais será esquecido pelos evangélicos do Brasil. Ele
foi um dos maiores e mais atuantes missionários em nossa terra. Filho de um
rabino, nasceu na Polônia a 6 de agosto de 1867, na cidade de Suwalki. Dos seis
aos 14 anos estudou na Alemanha, morando com seus tios. Já adolescente, um dia
leu Isaías 53. Segundo ele, "havia certos comentários à margem e uma nota
parecia sobressair a todas as outras: A quem se refere o profeta neste
capítulo? Inocentemente eu me voltei para meu pai e fiz a mesma pergunta.
Ele me olhou surpreendido e deixou-se cair num profundo silêncio. Não sendo
atendido, repetia. Então meu pai tomou o livro da minha mão e me deu uma
bofetada. Eu me senti profundamente triste e humilhado."
Aos 15 anos
foi morar e trabalhar com o tio em Londres. Num domingo à tarde, um missionário
aos judeus o convidou para ouvir uma explicação de Isaías 53. A lembrança do
episódio da bofetada fê-lo aceitar o convite. Salomão foi, ouviu tudo e começou
a mudar interiormente. Por três longos meses lutou contra suas raízes e
convicções. Por fim entrega-se a Cristo e é batizado. Começam imediatamente os
seus sofrimentos por amor ao seu Salvador. Foi espancado pelos parentes,
expulso de casa, deserdado e excomungado da fé judaica. Firme na fé,
entretanto, Salomão começou a preparar-se para servir melhor ao Senhor, embora
não soubesse ainda como nem onde.
A 10 de
junho de 1890, Salomão desembarcou no Rio de Janeiro como missionário, depois
de uma temporada em Portugal onde iniciou seus estudos da língua portuguesa.
O ministério
de Salomão no Brasil é um capítulo admirável da história de missões. Admirável
pela audácia de suas iniciativas, pela originalidade de seus movimentos, pela
coragem com que enfrentava multidões inflamadas pelo fanatismo romano e
admirável pela persistência na pregação e no testemunho.
Foram muitas
as perseguições. Em Vitória, num domingo de Carnaval, começou a pregar aos
foliões. Foi juntando gente, até que alguém suspeitou que aquele não era um
folião a mais e lançou um punhado de lama que lhe atingiu o rosto em cheio. Em
Niterói-RJ, ficou detido cerca de dez dias. Em São Fidélis, no Norte
Fluminense, foi com violência destratado pelo delega do de polícia. Fatos semelhantes se
deram em Campos e Macaé, no Estado do Rio, em Queimadas, no interior da Bahia,
só para citar alguns. Em Nazaré, Pernambuco, o padre da cidade alugou um
assassino profissional para matar Salomão. Mas o assassino não foi muito profissional
pois embriagou-se tanto que caiu e dormiu, perdendo assim a oportunidade de
cumprir o seu dever macabro. Dois meses depois, o assassino beberrão era
batizado por Salomão, "em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo".
A fúria
romana era ostensiva não só contra os missionários; também contra os crentes.
Salomão resume, em triste página de sua autobiografia, as perversidades que os
primeiros crentes brasileiros tiveram que enfrentar:
Templos
foram incendiados, crentes fustigados e fogo posto nas casas com os donos
dentro. Em alguns lugares, os perseguidores invadiam a casa dos crentes e os
tiravam de suas camas, pondo-os para fora, onde desordeiros mascarados, cada um
com um chicote, ficavam em linha. E os crentes, homens, mulheres ou crianças,
eram obrigados a passar pelas filas, e cada perseguidor dava uma chicotada na
pobre vítima, muitas das quais caíam a seus pés quase sem vida. Numa fazenda,
eles encontraram uma senhora de cama por ter dado à luz uma criança, havia
somente uma semana. Cortaram o berço em que estava a criancinha inocente a
dormir, e deixaram-na cair ao solo, matando-a, e a pobre mãe foi obrigada a
passar para a varanda e pela fila de bandidos, cada um açoitando o seu corpo
quase despido, com a força que podia despender.
O Senhor
Jesus, em Marcos 10.29,30, disse: "Em verdade vos digo que ninguém há, que
tenha deixado casa. ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos,
por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo,
em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no
mundo vindouro a vida eterna". Salomão a tudo considerou refugo por amor a
Cristo. Até hoje é espantoso o fruto do seu trabalho. As igrejas que ele fundou
e aquelas com as quais trabalhou são ainda hoje igrejas fortes, fiéis e
frutíferas.
João Soares da Fonseca, no livro Conta Outra: Histórias para sermões e estudos criativos.






