Em seu
livro Para onde, Senhor? (Cultura Cristã, 2011), relata o pastor presbiteriano Luciano Breder, sobre
como se deu o chamado missionário dele e de sua esposa Dorcas, e a forma como Deus
direcionou os eventos que culminaram na ida deles ao campo.
Crescemos
ali.
A igreja era
viva, animada; os irmãos fiéis, queridos; eram muitos os trabalhos... uma
equipe de evangelização completando dez anos de atividades! Dez anos de
comunhão, de enlevo espiritual e de aprendizado. Nos sentíamos completamente
integrados na obra do Senhor, na próspera cidade de Santo André, em São Paulo.
Trabalhávamos nessa igreja que crescia maravilhosamente; porém, no íntimo, dia
a dia, aumentava o desejo de nos entregarmos nas mãos do Mestre, em tempo
integral, de todo o coração na sua seara.
Dos campos
missionários da Amazônia, recebemos uma carta do rev. Davi Correia e sua esposa
Regina. Contavam-nos da grande necessidade de mais e mais obreiros naquela
região idólatra e carente da graça salvadora do nosso Deus.
Ao ler a
carta, o nosso coração palpitava de ansiedade e queimava de vontade de anunciar
as boas-novas... Como, porém, enfrentar tão grande desafio? Estávamos
enraizados em Santo André. Havíamos investido tempo e dinheiro nos estudos para
ter uma profissão e emprego e uma boa posição. Adquirimos nossa casa com tanto sacrifício...
o piano... Minha esposa sonhava com um piano desde os cinco anos de idade e
agora ele estava ali, bem na frente dos seus olhos e ao alcance de suas mãos!
Tudo isso
eram bens materiais que Deus nos tinha dado e não estávamos dispostos a nos
desfazer deles. Contudo, um bem singularmente valioso nos preocupava deixar:
uma cabecinha branca como a neve, um coração de ouro, uma crente fiel, a pessoa
amada que morava conosco: minha sogra.
Dorcas, minha esposa,
sentia que Deus lhe chamava; mas, por outro lado, ter que deixar sua mãe já
velhinha estava fora de cogitação.
Lembro-me bem quando
Dorcas me contou sobre seu nascimento.
“Minha mãe estava com 45
anos quando percebeu estar novamente grávida. Humanamente falando, o momento
não era oportuno para essa gravidez. Não só pela idade, mas também porque o
casamento estava muito mal. Meu pai estava descontente com o nascimento de mais
um filho e desejava a todo custo que minha mãe interrompesse a gravidez. Numa
noite ele saiu para buscar uma droga para que mamãe tornasse e abortasse.
Enquanto isso, ela colocou-se de joelhos e confiante em Deus buscou o seu
socorro. A oração de minha mãe foi mais ou menos assim: "Senhor, se queres
que esta criança viva, tu tens poder para tanto. E se ela viver, faça dela o
meu amparo na velhice". Meu pai voltou arrependido do seu intento. Deus
ouviu a oração de minha mãe!”
Dorcas nasceu. Na sua
meninice aceitou o Senhor Jesus e desde pequena aprendeu a evangelizar, tocando
violão e falando de Jesus para as crianças vizinhas. Quantas lembranças bonitas
ela traz dentro de si, dos tempos de criança, quando só ela e a mãe iam pela manhãzinha
ao templo e oravam e recebiam as ricas bênçãos de Deus.
Minha esposa sempre se
recorda dos dias passados:
"Com a enfermidade de
mamãe, Deus muito me ensinou sobre a paciência. Foram dias agitados, com idas
constantes ao médico, medicação nas horas certas, alimentação especial, viagens
para tratamento... Mais tarde, a casa foi ficando vazia, com todos os meus
irmãos se casando; depois foi minha vez de casar também e nós não chegávamos a
um acordo para ver quem é que iria ficar com a preciosa velhinha. Os mais
velhos a queriam, por serem os mais velhos. Eu, por ser a caçula, dizia ter os
meus direitos. Mamãe andava sempre apoiada em mim e, por causa disso, ela não poderia
ficar sem sua 'bengalinha', eu afirmava." Dorcas venceu e Dona Nena foi
morar conosco.
Com isso, Dorcas sofria
demais, percebendo o chamado divino, mas nunca compartilhou esse seu drama com
ninguém; nem mesmo comigo. Um dia, quando recebemos outra carta do reverendo
Davi, ela sentiu-se muitíssimo aborrecida, porém, percebendo que resistia ao
Senhor, entrou no quarto e, orando, entregou tudo nas mãos de Deus.
Contou-lhe toda a sua
vida, como se ele não a soubesse, e descansou nele.
Naquela mesma semana, sua
mãe a surpreendeu com a decisão de mudar-se, com a filha Damaris, para o
interior do Estado:
— Tua irmã vai para um
lugar estranho e será bom eu acompanhá-la. Pensei muito e acho que Deus tem um
ministério especial para você, Dorcas, juntamente com seu marido. Acho até que
por esse ministério foi que ele não lhes deu filhos.
Foi um grande choque para
Dorcas a sua decisão, mas Deus já estava preparando o caminho. Dona Nena, sua
mãe, mudou-se com Damaris para uma cidade chamada Tatuí. Nós fomos levá-la de
carro para o seu novo lar. Quando voltamos tivemos que parar várias vezes na
estrada, porque as lágrimas não nos deixavam enxergar. Deus já estava falando
ao nosso coração. O desenlace se daria em pouco tempo. No seu grande amor, ele
foi nos dando provas de que era seu plano tudo o que tinha ocorrido até ali.
A doença de Dona Nena
piorou, seu estado de saúde estava cada vez mais grave e Dorcas foi visitá-la.
Mandei-lhe uma cartinha convidando-a para vir morar conosco outra vez. Disse a
ela que no dia 11 de junho iríamos buscá-la.
No dia 10 desse mesmo mês
recebemos a notícia que ela havia falecido. Trouxemos o seu corpo para Santo
André.
Passado o impacto da
notícia da morte de sua mãe, Doreas me disse entre lágrimas:
— Agora que sei onde mamãe
está, para onde o Senhor mandar você, eu irei!
Numa segunda-feira, ao
chegar ao escritório técnico da firma onde trabalhava, fui inteirado de uma
novidade por meio de meu superior:
— Luciano, na última
reunião da diretoria ficou decidido que você irá liderar um grupo no
desdobramento de uma seção de projetos. Para que você fosse escolhido, eu
trabalhei bastante dando boas referências a seu respeito. Com isso, você
passará a perceber um salário muito melhor, além de crescer no conceito da
empresa.
Eu e minha esposa já
havíamos tornado a nossa decisão diante de Deus e dado a nossa palavra ao
presidente da Junta de Missões Nacionais de que seguiríamos para o campo.
Em face dessa decisão,
agradeci ao meu superior:
— Sr. Otto, agradeço muito
e estou sensibilizado pela notícia, mas... estou hoje aqui para pedir minha
demissão da empresa em caráter irrevogável.
Ele estava surpreso,
confuso e depois, aborrecido, me mandou para o diretor. Ao entrar em sua sala,
o diretor veio até mim todo contente:
— Feliz, Sr. Breder, com a
promoção?
— Sr. Bracht, fiquei
feliz, sim, e muito honrado. No entanto, estou aqui para pedir minha demissão
em caráter irrevogável.
Encarando-me muito sério
ele disse:
— Vamos sentar, Sr.
Breder. Vamos negociar e talvez possamos cobrir a oferta que você recebeu de
outra empresa.
— Para a empresa que eu
estou indo, devo ganhar quatro vezes menos do que ganho aqui.
O alemão quase teve um
colapso e me pediu explicações e depois de me ouvir respondeu:
— Sendo assim, nada há que
se possa fazer; no entanto, se algo não der certo em sua nova carreira, as
nossas portas estarão sempre abertas.
Ouvindo isso, tive vontade
de responder-lhe, que meu Patrão, doravante, seria muito melhor que ele, mas, na
verdade, o que realmente fiz foi agradecer por meu emprego ali durante aqueles
dez anos, a camaradagem, a acolhida e tudo mais.
Orando, no desejo de ver
cada diretor e cada colega de trabalho rendidos aos pés de Cristo, e entregando
a eles um exemplar do Novo Testamento, transpus, após trinta dias, pela última
vez, os portões da empresa, radiante por ter vencido mais um obstáculo.
Muitos outros surgiram.
Mesmo de nossos familiares que nos desencorajavam e temiam por nossa vida e
pela nossa saúde. Apreensivos justificavam-se dizendo que aqui mesmo perto de
nós havia muitos pecadores e que não era preciso ir tão longe. Todavia, nenhuma
voz poderia suplantar a que nos falava amorosamente aos ouvidos: "Não
temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que
andares."



