domingo, 19 de agosto de 2012

Missões no Sertão: Desafios Missionários



Josenildo Virgolino

O evangelho adentrou pelos sertões, inicialmente, pelo trabalho desbravador dos colportores e dos evangelistas que naquela época eram reconhecidos pelas igrejas.  Gente sofrida, mas corajosa. Naquela época enfrentavam-se viagens difíceis nas estradas de barro, em cima de caminhões ou em lombos de cavalo. Como se não bastasse, a resistência ao evangelho era muito grande. Pregavam-se na feira, nas ruas, cultos nos sítios e etc. Havia perseguição instigada pela Igreja Católica. Igrejas foram depredadas com os crentes dentro em pleno horário de culto. Muitas Bíblias foram queimadas. Emboscadas foram feitas para matar pastores. Igrejas foram derrubadas à noite durante o seu processo de construção.  Isso nós nos esquecemos com muita facilidade.

            As igrejas iam se firmando nas cidades. Nem todas as denominações conseguiram fazer com que suas bandeiras fossem também içadas nessas terras. Algumas não se afastavam do litoral. Mas o trabalho desses homens e mulheres corajosas rendeu frutos. Talvez pelo fato de se ter uma área muito grande e os que se dispunham a tais empreendimentos serem poucos, muitas lacunas ficaram para serem preenchidas, isto é: Muitos lugares ficaram sem ser alcançados, principalmente na zona rural.

            Se por um lado essas barreiras ao avanço do evangelho iam dificultando o avanço dos evangelistas, ao mesmo tempo ia forjando o caráter e fortalecendo o testemunho desses homens de Deus que não deveríamos esquecê-los.

            Hoje, olhando para a frente, vejo com pesar o horizonte que esconde o sol por trás da montanhas com a silhueta do pé de cactos e do vaqueiro magro em seu cavalo pangaré, sempre acompanhado de Xuxa (a sua cadelinha) que o ajuda a ajuntar o gado nos finais de tarde no sertão para trazer para o curral. Vejo com pesar porque essa figura hoje começa a fazer parte somente do nosso imaginário ou nos registros dos livros de poesias sertanejas que também começam a desaparecer.

            Numa velocidade muito grande a barbárie muda de lado, os prostíbulos vão à falência pelo surgimento da prática libertina do sexo por adolescentes, que décadas a trás, meninas dessa idade ainda brincavam de bonecas.

            Confesso que fiquei extremamente chocado ao conhecer uma garota de 13 anos que a 06 meses a trás a sua mãe levou o “abusador” para dentro de casa para tirar a virgindade da filha e ainda ficou assistindo a cena. Essa garota se converteu ao Senhor Jesus recentemente. Tive a oportunidade de orar por ela e meu coração se encheu de compaixão pela pobre menina que hoje é apenas uma entre milhares de milhares que no nosso sertão, passam por situações semelhantes, completamente indefesas. Por isso vejo com pesar esse horizonte à nossa frente. Se de um lado encontramos casos dessa natureza, pessoas feridas, com chagas profundas em sua alma, na flor da sua pré adolescência, de outro lado vejo uma região repletas de pessoas usadas pelos poderes para eleger monstros políticos que legislam em causa própria, torcem o direito do pobre, apoderam-se de verbas que seriam destinadas para alimentação como merenda escolar, fardamento, assistência médica e tantas outras finalidades e... Pasmem: SÃO INOCENTES!  

            Vejo o nosso horizonte do sol boreal, causticante, rachando o solo e a pele do rosto daqueles que insistem em lavrar a terra como a única esperança; vejo o nosso horizonte ainda com pesar. Com pesar por ver o meu povo ainda como “objeto esquecido” até e, digo aqui com muita tranqüilidade: até mesmo pela grande maioria de nossas igrejas e quase a totalidade de nossas escolas teológicas que não premias em suas pautas de orações e investimentos como formação de pessoas direcionadas para essas áreas.

            Na minha experiência de campo posso afirmar que tenho encontrado verdadeiras “jóias”, pessoas com talentos (dados por Deus, é claro), pessoas sedentas de Deus mesmo vivendo no meio de uma grande idolatria, como que perdidos dentro desses campos. Gente adulta, crianças, adolescentes. É uma pena que não possamos garimpá-los todos para o Senhor!

            Vejo com pesar quando percebo que para muitos, infelizmente, fazer uma viagem missionária ao Sertão torna-se uma oportunidade para arranjar um namorado (a) na viagem ou ficar com a consciência mais aliviada do pecado da omissão. O medo que tenho é que o Sertão vire moda e as caatingas tornem-se passarelas para os viajantes tirarem suas fotos de recordação na hora de voltarem como “heróis” para contarem em casa da miséria e abandono aos corações frios e descomprometidos que os aguardam na volta da viagem da “grande aventura missionária”. Depois... Bom, depois tudo continua como era antes. Como diz o Chico Buarque: “A mesma praça, a mesma casa e a moça na janela a ver a banda passar”.

Deleito-me ao folhear as páginas do livro “Januário Antônio dos pés formosos”- escrito por Caleb Soares, filho do protagonista da maior parte da história do livro. Nele estão longos trechos do livro escrito pelo inglês Frederick C Glass que se preocupa em relatar detalhadamente suas dificuldades de transporte em lombos de cavalos em noites chuvosas, da provisão de Deus em lugares áridos. Encontrei num trecho o relato do momento em que o Januário cruzou com o bando de Antônio Silvino – cangaceiro valente, mas a resposta do Januário foi mais valente ainda ao desembainhar a sua metralhadora de 66 cartuchos e apresentá-la ao bando. Em outra parte, vendo a foto do nosso saudoso pastor Rev. Josibias Fialho Marinho, que por vezes sofreu perseguição e relatos do apedrejamento da Igreja Congregacional de Guarabira no dia de sua inauguração no dia 21 de abril de 1937, por incitação do padre local e fanáticos do Frei Damião apedrejaram a igreja no momento do culto pondo em risco a vida de crianças e mulheres no alvoroço da correria ao apagarem as luzes. A Igreja Presbiteriana de Patos também foi alvo do vandalismo dos insuflados pelo Frei Damião nas suas andanças das chamadas “Santas Missões” que eu, inclusive já tive a oportunidade de participar quando criança, em suas procissões de madrugada levando ramos de laranjeira juntamente com minha mãe.
Essa pincelada tem a tentativa de mostrar um sertão que já se foi. E confesso: não sei se foi bom ele ter ido embora. O sertão de hoje é diferente. A pós-modernidade adentra pelas caatingas com suas imposições. Coisas e costumes que chegaram de forma gradativa nas grandes cidades, no interior chegaram de uma só vez. Nas grandes cidades a saia das mulheres foi diminuindo de tamanho gradativamente e de igual modo os aparelhos de televisão que antes eram quase um guarda-roupa foram reduzidos em seu tamanho, as válvulas foram trocadas pelos transistores, por outro lado a roupa de banho das mulheres quase desapareceu e hoje para você ver tem dificuldade, principalmente se tiver problemas de vista, pois foram reduzidas a “um fio”. Esse assunto pode parecer cômico, e seria se não tivesse o seu lado trágico. Toda essa mudança chegou de vez no sertão. Confesso-lhes que não há cidade pequena que não tenha uma lan house, e não são poucas as casas, dentro do mato, com problemas sérios de coluna (empinadas para um lado ou para trás – escoradas com uma forquilha) ostentam garbosamente em seu teto uma antena parabólica.
O novo sertão está aí, com as portas abertas, estradas asfaltadas, é verdade, em alguns lugares há buracos com asfalto, mas dá para passar. Sempre um orelhão que quando funciona ajuda muita gente quando não há sinal de celular. - HÁ pouco tempo eu entrei com a caminhonete numa estrada estreita e cheia de mato para chegar à casa de certo senhor que morava perto do rio e afastado da cidade e, depois da nossa conversa perguntei de que outra forma eu poderia entrar em contato com ele. “Ora, ele não teve dúvida: Ô Zefinha, põe aí num parpé o número do nosso celular pro moço levá”. – Coisa chique, não?
            Pois é, o sertão agora está assim. Os prostíbulos foram à falência. O tráfico de drogas em toda parte. O cavalo como meio de transporte, nesses dias vai servir apenas como figura de recordação, pois de uma maneira muito apressada está sendo substituído pela moto. Hoje há lugares que alguns vaqueiros tangem o gado de moto. Em algumas cidades pólo começam a abrir cursos de graduação superior – só não melhora a qualidade do ensino.
Mas, amados irmãos, 3 (treis) coisas devem ficar muito claras no meio de tudo esse quadro pintado:
1.      O Sertão cresceu de tamanho – sua população desde os idos de 1937 para cá tem crescido, apesar do êxodo rural.
2.      Os desafios missionários e a necessidade de se levar o evangelho a essa gente nunca diminuiu e não transferido para ninguém: “Continua sobre os nossos ombros”.
3.      No meio de todo esse caos aqui citado (caos que nas capitais não é menor) há muita gente escolhida por Deus, muitos eleitos do Senhor que precisam ser alcançados pela Igreja do Senhor Jesus. Muita gente inteligente, muita gente dotada de dons e talentos e essas pessoas cheias do Espírito Sato, vocês não têm idéia do que serão capazes de fazer para a Glória de Deus!
Vejamos aqui alguns detalhes dos desafios missionários do Sertão Nordestino nos nossos dias:

1)      Nós temos no Nordeste quase 400 municípios com menos de 1,0% de evangélicos. Segundo alguns pensadores em missiologia, um povo com 1,0% ou menos do que isso é considerado povo não alcançado pelo evangelho. Então partindo desse princípio podemos dizer que temos no Nordeste quase 400 municípios não alcançados pelo evangelho.
2)      O pequeno percentual de crentes que encontramos nesses municípios encontra-se necessariamente na zona urbana, isto é: na sede dos municípios;
3)      Conseguimos encontrar com certa facilidade povoados onde não há nenhuma igreja evangélica, sítios onde nunca passou alguém antes pregando o evangelho, onde na verdade pela primeira vez na história alguém passa com uma Bíblia na mão!
4)      Conseguimos encontrar, normalmente, pessoas sedentas para ouvir a Palavra de Deus. Um dia de arar, lavrar ou tombar a terra como alguns chamam no interior, é um dia muito importante. No entanto vimos casos em que famílias inteiras abandonaram o campo e correm para casa porque os crentes estavam visitando todas as casas daquela região e alguém viu que os crentes estavam indo para as bandas da sua casa e eles deixaram a roça e correram para esperar os crentes, pois eles queriam ouvir o que os crentes tinham para dizer.
5)      Também conseguimos encontrar com facilidade sertanejos que vivem “rezando” para Deus mandar um crente por lá.
6)      Nas situações como falamos existe um universo de 15,5 milhões de pessoas. Mesmo considerando a posição de alguns defensores de missões urbanas por considerarem ser grande o êxodo rural, havemos de convir que um universo de 15,5 milhões de pessoas ainda é um número considerável, por outro lado a velocidade do êxodo ainda é pequena em relação a explosão demográfica, e temos que considerar o efeito maléfico para o  sertanejo porque o êxodo o torna em favelado. Nos próximos 15 anos muita gente estará fazendo o caminho de volta dos grandes centros em busca de cidades emergentes do interior. No caso do êxodo do sertão ele tem um direcionamento: Rio ou São Paulo por causa do emprego. – Concluindo: Por todas as razões citadas temos que entender que avançar com a Igreja rumo à zona rural do Sertão Nordestino é um imperativo!!!! – Urgente!!! Porém:

a)      O desafio do sertão não é somente evangelizar e plantar novas igrejas na zona rural;
b)      A zona urbana do Sertão Nordestino também clama por socorro. As igrejas precisam de ajuda, de treinamento, de mobilização, motivação, capacitação;
c)      A igreja do Sertão sofre muito com o êxodo de seus membros que vão embora para o eixo Rio São Paulo;
d)      Os investimentos que as igrejas do Sertão faz, com muito sacrifício, ao enviar seus seminaristas para estudarem nas capitais tornam-se infrutíferos, pois muitos não voltam sequer para a sua região, muito menos para a sua igreja;
e)      As pessoas que trabalham com crianças não dispõem de treinamento, de material e muito menos de motivação, na grande maioria dos casos;
f)       A escassez de recursos, muitas das vezes o sustento aquém do necessário, o grande peso espiritual, são fatores que contribuem decisivamente para a apatia de muitos ministérios nas igrejas do Sertão;
g)      A falta de uma preparação adequada de obreiros para as áreas inóspitas também se constitui num grande problema, pois os seminários não preparam as pessoas para desenvolverem ministério em situações assim.

A maior dificuldade para se alcançar o Sertão Nordestino com o evangelho é ver a Região Metropolitana dos Estados do Nordeste como uma forte BASE ENVIADORA. As igrejas reúnem muitas condições para ser um Pólo Enviador, mas:
  1. Não há conjunto!
  2. Não há um desprendimento para enxergar missões como uma questão de obediência, e assim missões está virando mais um modismo, mais uma atividade no calendário eclesiástico; Logo após a conferência missionária, onde o preletor falou apaixonadamente sobre os desafios do campo, muitas vezes no encerramento da própria conferência já se começa a fazer os anúncios da próxima festa de aniversário seja lá do que for.
  3. Numa conferência missionária, hora de levantar ofertas há grande estímulo, grande ênfase nas Escrituras, mas na hora de contribuir para missões os argumentos do “aperto orçamentário” são muito contundentes. Existem casos de missionários que, estando no campo, vê seu sustento despencar através de uma carta ou um telefonema sob a alegação de que a igreja está entrando numa fase de construção.
  4. Os fatores citados nos itens 2 e 3 não são impercebíveis, mas não são questionados;
  5. Compaixão é figura de retórica;
  6. Interesse e gemidos pela expansão da obra missionária e salvação de almas é matéria encontrada em histórias do século XVIII.

7)      As dificuldades para responder a esse desafio são:
a)      A disposição de muitas igrejas de investirem em um campo onde não haverá retorno rápido, onde não haverá condições de auto-sustento do campo em médio prazo nem em longo prazo.
b)      A falta de obreiros dispostos a morarem no campo, isto é: na própria zona rural.
c)      Falta de um trabalho consistente de intercessão pelo sertão com orações específicas.
d)      Falta de recursos para se financiar o avanço da igreja. Muitas igrejas quando ajudam a um missionário esquecem que além de suas despesas com a família, seu sustento pessoal tem também que desenvolver o ministério e para isso ele tem despesas, e, portanto, muitas vezes, tira do seu próprio sustento pessoal para cobrir despesas com o ministério. Entendemos que falta um conhecimento mais detalhado de FINANÇAS DE MISSÕES (assunto de matéria oferecida pela AMAI no curso de MOBILIZADOR DE MISSÕES).
e)      Falta também um conhecimento “in loco” da realidade sertaneja. Temos provas de que todos os pastores que visitam os campos têm um contato direto com os nossos desafios missionários no sertão, tornam-se mais sensíveis, e lhes afirmo: Isso é o começo da mudança! – Não basta conhecimento, é preciso haver sentimento!

Vou me despedir de vocês por aqui nestas palavras, ma creiam os irmãos, enquanto o Senhor nos favorecer com saúde haveremos de lutar pelo alcance do nosso povo com o evangelho, mas vamos celebrar nos próximos anos, nas nossas próximas conferências missionárias, sempre os mesmos números, sempre afirmando que temos 15,5 milhões de pessoas na zona rural do Nordeste, afirmando que só em Pernambuco são 2,0 milhões de pessoas em sítios, pés de serra e beiras de rios. Só a zona rural de Petrolina e Juazeiro da Bahia (separadas apenas pelo Rio São Francisco) soma 105.000 pessoas. Na Bahia temos um universo de 4,7 milhões de pessoas na zona rural. Irmãos creio que precisamos de um avivamento. Um avivamento que seja capaz de abalar nossas estruturas e nos fazer relevar o que hoje é relevante por amor a Cristo, sem discurso e sem fantasia, mas dispostos a morrer para nós mesmos, para podermos então vivermos para Cristo para podermos serví-Lo nos campos rachados do Sertão Nordestino. 


Josenildo Virgolino de Lima
             Direção da AMAI
            55-81-9182 3108

Para investimento no missionário:
Conta Poupança: BANCO DO BRASIL
Ag 1361-7   Conta: 6975-2
CPF: 094.941.204-00

 Para investimento na AMAI:
AMAI - Ação Missionária Para Áreas Inóspitas
CNPJ: 05.865.444/0001-03
Banco: BRADESCO
             AG. 0289
            C/C 133.188-4

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