segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Obedecendo ao chamado missionário: O testemunho da família Breder

 


Em seu livro Para onde, Senhor? (Cultura Cristã, 2011), relata o pastor presbiteriano Luciano Breder, sobre como se deu o chamado missionário dele e de sua esposa Dorcas, e a forma como Deus direcionou os eventos que culminaram na ida deles ao campo.


Crescemos ali.

A igreja era viva, animada; os irmãos fiéis, queridos; eram muitos os trabalhos... uma equipe de evangelização completando dez anos de atividades! Dez anos de comunhão, de enlevo espiritual e de aprendizado. Nos sentíamos completamente integrados na obra do Senhor, na próspera cidade de Santo André, em São Paulo. Trabalhávamos nessa igreja que crescia maravilhosamente; porém, no íntimo, dia a dia, aumentava o desejo de nos entregarmos nas mãos do Mestre, em tempo integral, de todo o coração na sua seara.

Dos campos missionários da Amazônia, recebemos uma carta do rev. Davi Correia e sua esposa Regina. Contavam-nos da grande necessidade de mais e mais obreiros naquela região idólatra e carente da graça salvadora do nosso Deus.

Ao ler a carta, o nosso coração palpitava de ansiedade e queimava de vontade de anunciar as boas-novas... Como, porém, enfrentar tão grande desafio? Estávamos enraizados em Santo André. Havíamos investido tempo e dinheiro nos estudos para ter uma profissão e emprego e uma boa posição. Adquirimos nossa casa com tanto sacrifício... o piano... Minha esposa sonhava com um piano desde os cinco anos de idade e agora ele estava ali, bem na frente dos seus olhos e ao alcance de suas mãos!

Tudo isso eram bens materiais que Deus nos tinha dado e não estávamos dispostos a nos desfazer deles. Contudo, um bem singularmente valioso nos preocupava deixar: uma cabecinha branca como a neve, um coração de ouro, uma crente fiel, a pessoa amada que morava conosco: minha sogra.

Dorcas, minha esposa, sentia que Deus lhe chamava; mas, por outro lado, ter que deixar sua mãe já velhinha estava fora de cogitação.

Lembro-me bem quando Dorcas me contou sobre seu nascimento.

“Minha mãe estava com 45 anos quando percebeu estar novamente grávida. Humanamente falando, o momento não era oportuno para essa gravidez. Não só pela idade, mas também porque o casamento estava muito mal. Meu pai estava descontente com o nascimento de mais um filho e desejava a todo custo que minha mãe interrompesse a gravidez. Numa noite ele saiu para buscar uma droga para que mamãe tornasse e abortasse. Enquanto isso, ela colocou-se de joelhos e confiante em Deus buscou o seu socorro. A oração de minha mãe foi mais ou menos assim: "Senhor, se queres que esta criança viva, tu tens poder para tanto. E se ela viver, faça dela o meu amparo na velhice". Meu pai voltou arrependido do seu intento. Deus ouviu a oração de minha mãe!”

Dorcas nasceu. Na sua meninice aceitou o Senhor Jesus e desde pequena aprendeu a evangelizar, tocando violão e falando de Jesus para as crianças vizinhas. Quantas lembranças bonitas ela traz dentro de si, dos tempos de criança, quando só ela e a mãe iam pela manhãzinha ao templo e oravam e recebiam as ricas bênçãos de Deus.

Minha esposa sempre se recorda dos dias passados:

"Com a enfermidade de mamãe, Deus muito me ensinou sobre a paciência. Foram dias agitados, com idas constantes ao médico, medicação nas horas certas, alimentação especial, viagens para tratamento... Mais tarde, a casa foi ficando vazia, com todos os meus irmãos se casando; depois foi minha vez de casar também e nós não chegávamos a um acordo para ver quem é que iria ficar com a preciosa velhinha. Os mais velhos a queriam, por serem os mais velhos. Eu, por ser a caçula, dizia ter os meus direitos. Mamãe andava sempre apoiada em mim e, por causa disso, ela não poderia ficar sem sua 'bengalinha', eu afirmava." Dorcas venceu e Dona Nena foi morar conosco.

Com isso, Dorcas sofria demais, percebendo o chamado divino, mas nunca compartilhou esse seu drama com ninguém; nem mesmo comigo. Um dia, quando recebemos outra carta do reverendo Davi, ela sentiu-se muitíssimo aborrecida, porém, percebendo que resistia ao Senhor, entrou no quarto e, orando, entregou tudo nas mãos de Deus.

Contou-lhe toda a sua vida, como se ele não a soubesse, e descansou nele.

Naquela mesma semana, sua mãe a surpreendeu com a decisão de mudar-se, com a filha Damaris, para o interior do Estado:

— Tua irmã vai para um lugar estranho e será bom eu acompanhá-la. Pensei muito e acho que Deus tem um ministério especial para você, Dorcas, juntamente com seu marido. Acho até que por esse ministério foi que ele não lhes deu filhos.

Foi um grande choque para Dorcas a sua decisão, mas Deus já estava preparando o caminho. Dona Nena, sua mãe, mudou-se com Damaris para uma cidade chamada Tatuí. Nós fomos levá-la de carro para o seu novo lar. Quando voltamos tivemos que parar várias vezes na estrada, porque as lágrimas não nos deixavam enxergar. Deus já estava falando ao nosso coração. O desenlace se daria em pouco tempo. No seu grande amor, ele foi nos dando provas de que era seu plano tudo o que tinha ocorrido até ali.

A doença de Dona Nena piorou, seu estado de saúde estava cada vez mais grave e Dorcas foi visitá-la. Mandei-lhe uma cartinha convidando-a para vir morar conosco outra vez. Disse a ela que no dia 11 de junho iríamos buscá-la.

No dia 10 desse mesmo mês recebemos a notícia que ela havia falecido. Trouxemos o seu corpo para Santo André.

Passado o impacto da notícia da morte de sua mãe, Doreas me disse entre lágrimas:

— Agora que sei onde mamãe está, para onde o Senhor mandar você, eu irei!

Numa segunda-feira, ao chegar ao escritório técnico da firma onde trabalhava, fui inteirado de uma novidade por meio de meu superior:

— Luciano, na última reunião da diretoria ficou decidido que você irá liderar um grupo no desdobramento de uma seção de projetos. Para que você fosse escolhido, eu trabalhei bastante dando boas referências a seu respeito. Com isso, você passará a perceber um salário muito melhor, além de crescer no conceito da empresa.

Eu e minha esposa já havíamos tornado a nossa decisão diante de Deus e dado a nossa palavra ao presidente da Junta de Missões Nacionais de que seguiríamos para o campo.

Em face dessa decisão, agradeci ao meu superior:

— Sr. Otto, agradeço muito e estou sensibilizado pela notícia, mas... estou hoje aqui para pedir minha demissão da empresa em caráter irrevogável.

Ele estava surpreso, confuso e depois, aborrecido, me mandou para o diretor. Ao entrar em sua sala, o diretor veio até mim todo contente:

— Feliz, Sr. Breder, com a promoção?

— Sr. Bracht, fiquei feliz, sim, e muito honrado. No entanto, estou aqui para pedir minha demissão em caráter irrevogável.

Encarando-me muito sério ele disse:

— Vamos sentar, Sr. Breder. Vamos negociar e talvez possamos cobrir a oferta que você recebeu de outra empresa.

— Para a empresa que eu estou indo, devo ganhar quatro vezes menos do que ganho aqui.

O alemão quase teve um colapso e me pediu explicações e depois de me ouvir respondeu:

— Sendo assim, nada há que se possa fazer; no entanto, se algo não der certo em sua nova carreira, as nossas portas estarão sempre abertas.

Ouvindo isso, tive vontade de responder-lhe, que meu Patrão, doravante, seria muito melhor que ele, mas, na verdade, o que realmente fiz foi agradecer por meu emprego ali durante aqueles dez anos, a camaradagem, a acolhida e tudo mais.

Orando, no desejo de ver cada diretor e cada colega de trabalho rendidos aos pés de Cristo, e entregando a eles um exemplar do Novo Testamento, transpus, após trinta dias, pela última vez, os portões da empresa, radiante por ter vencido mais um obstáculo.

Muitos outros surgiram. Mesmo de nossos familiares que nos desencorajavam e temiam por nossa vida e pela nossa saúde. Apreensivos justificavam-se dizendo que aqui mesmo perto de nós havia muitos pecadores e que não era preciso ir tão longe. Todavia, nenhuma voz poderia suplantar a que nos falava amorosamente aos ouvidos: "Não temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares."

 

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