domingo, 19 de abril de 2026

Carta aberta aos familiares de missionários em zonas de conflito

 


Lilly Rivera

Prezado pai, mãe ou irmão(ã) de um ente querido que vive em uma zona de conflito,

Eu te vejo. Ah, como eu te vejo. Vejo você pegando o celular antes mesmo de sair da cama para ver o que aconteceu durante a noite no Oriente Médio e buscar informações que garantam que sua família lá está bem. Vejo você se perguntando por que eles ainda não pegaram um avião e voltaram para “casa”, em segurança. Vejo você mandando mensagens para eles, perguntando várias vezes por semana (talvez várias vezes por dia?) “Como vocês estão? Como estão as crianças? Do que vocês precisam?” 

Sei que existem muitos "e se" que passam  pela sua cabeça. Sei dos planos que você fez para preparar a casa, "por precaução". 

Você está exausto(a) depois dos últimos três anos de guerras no Oriente Médio, em especial. Você se despediu há anos e continua se despedindo cada vez que seus entes queridos vêm para casa a trabalho ou quando você os visita. Você sente falta dos seus filhos e netos, e essa instabilidade adicional (de novo!) parece ser demais.

Você está com dificuldade para entender por que seus entes queridos estão tomando as decisões que estão tomando, decisões que podem colocá-los em risco. O governo está até mesmo pedindo aos ocidentais que deixem a região — por que eles não estão atendendo a esse apelo? 

Um pouco de tranquilidade 

Primeiramente, quero tranquilizá-lo(a) dizendo que a maioria das organizações que enviam trabalhadores para o exterior são muito bem treinadas em como lidar com questões de segurança para seus funcionários no país de destino. Elas não apenas possuem informações de segurança precisas, como muitas também treinam seus funcionários em como avaliar riscos e como se manterem seguros quando estiverem no exterior.

A maioria das equipes costuma ter planos de contingência em vigor, com diferentes níveis de atenção dependendo da natureza da ameaça. Quando uma guerra irrompe em uma região, a opção mais segura nem sempre é fugir e abandonar sua casa. Há muitas outras coisas a serem consideradas, e geralmente os trabalhadores em campo têm a árdua tarefa de ponderar todos esses aspectos junto com seus cônjuges, filhos, colegas de equipe, líderes e organizações. 

No caso dos Estados Unidos (e presumo que o mesmo se aplique a outros países), o Departamento de Estado adota uma  política de "não usar dois pesos e duas medidas", segundo  a qual, se suas embaixadas e funcionários oficiais americanos em um país estrangeiro estiverem em perigo e precisarem ser retirados do país, o Departamento deve informar os cidadãos americanos não oficiais sobre a ameaça potencial. Mas quando uma embaixada é atacada e o pessoal é evacuado, isso não significa necessariamente que todos os ocidentais precisem deixar a região. 

Podemos sentir urgência quando ouvimos que o Departamento de Estado emitiu um apelo para que todos deixem uma zona de conflito, mas isso não significa que, se alguém optar por ficar, esteja em perigo imediato ou fazendo algo imprudente. O governo está se precavendo, mas cada unidade/família tem o direito de decidir o que é melhor para sua família e situação específica. Em uma equipe, pode haver membros que precisem partir, e nós os apoiamos nessa decisão. E, nessa mesma equipe, há outros que optarão por ficar, e nós também os apoiamos nessa decisão. Cada unidade precisa buscar, em oração, a sabedoria do Senhor para sua vida específica.

Lembre-se também de que seus parentes não são turistas presos em terras estrangeiras. Provavelmente falam o idioma local, sabem se locomover pelas cidades e sabem quais áreas evitar em caso de instabilidade. Têm acesso a comida e água, contam com o apoio da comunidade local e estabeleceram uma rotina segura. Em outras palavras, fizeram daquele lugar o seu lar. Às vezes, a experiência real das pessoas no local é muito diferente daquela que é noticiada, e é muito menos traumático para as famílias permanecerem onde estão, para que seus filhos continuem indo à escola e mantenham uma sensação de normalidade. 

Espero que essas informações ajudem você a se sentir mais tranquilo — que seus parentes provavelmente estejam treinados e sendo liderados por pessoas que prezam pela segurança deles e têm planos de contingência. E que permanecer na região pode ser muito melhor a longo prazo para seus parentes do que desenraizar suas famílias e suas vidas por um período indeterminado. 

Duas dicas comprovadas pela neurociência 

Ao mesmo tempo, não quero minimizar o impacto desta situação em você. Você está passando por um momento de angústia e preocupação reais com seus familiares, e quando nosso sistema nervoso é ativado, muitas vezes sentimos a necessidade de estender a mão e fazer algo. E isso faz todo o sentido. 

É importante entender, porém, que nosso sistema nervoso não existe isoladamente. Ele é programado para se comunicar com os outros. Deus nos deu  neurônios-espelho  que respondem ao que observamos nos outros.

Quando você compartilha muita ansiedade e medo profundo em relação aos seus entes queridos e às decisões deles, o sistema nervoso deles capta isso. E, em vez de você ser um porto seguro para a vulnerabilidade deles, eles sentem o estresse e o peso de cuidar de você e da sua reação emocional à situação. Também é difícil para eles quando percebem que seu julgamento e sua capacidade de tomar decisões sensatas estão sendo questionados. 

Sei que você quer amar bem e ser um porto seguro para seus entes queridos. Considerando como Deus criou nosso sistema nervoso e como ele se comunica, gostaria de compartilhar algumas dicas sobre como interagir:

1) Transmita confiança na orientação de Deus e no discernimento e capacidade de seus familiares em seguir o Espírito Santo enquanto seguem a Cristo.  Eles não precisam ouvir o que você acha que eles precisam fazer. Eles não precisam ouvir sobre o medo profundo. Lembre-se de que eles estão caminhando na corda bamba e que seus níveis de estresse já estão altos. Eles sentem a extrema responsabilidade de cuidar de seus filhos e daqueles que estão sob seus cuidados. Nesse contexto, eles precisam de alguém que os ouça, precisam da confirmação de que o que estão vivenciando é difícil e também precisam ser lembrados de que não estão sozinhos e que, seja qual for a forma como Deus os guiar, Deus será fiel. Sua confiança em Deus é um dos melhores presentes que você pode dar a eles nesta fase da vida. 

2.) Se você perceber que seu sistema nervoso está ativado, identifique essa ativação e movimente a energia em seu corpo, de preferência antes de interagir com seus entes queridos.  Cuide primeiro de si mesmo e da sua capacidade emocional, para que você possa estar presente para eles. Faça exercícios de respiração, dê uma caminhada, ligue para um amigo de confiança que seja carinhoso com você.

Uma Presença Confortante 

Por fim, querido parente, sei que você sabe disso: temos um Pastor que está conosco e que nos serve um banquete mesmo na presença de nossos inimigos (Salmo 23). Ele te conhece e te vê enquanto você cuida e carrega o peso da angústia por aqueles que você ama profundamente. Ele está com você neste vale. 

Lembrar do nosso generoso anfitrião, Jesus, que se entregou a nós para ser o nosso banquete através do Seu corpo e sangue, é como lutamos as nossas batalhas. Tomamos o pão e bebemos o vinho, cremos que Ele venceu, louvamos a Ele e esperamos que Ele nos liberte, a nós e aos nossos entes queridos. 

Certamente, a bondade e a misericórdia estão te buscando especificamente por amar pessoas em uma zona de conflito. Você é importante, e seu amor por seus filhos, netos, irmãos ou pais é algo belo e bom. O Senhor honra esse amor. Seu amor envolve todas essas pessoas preciosas e, ainda melhor, o amor do nosso Deus Trino envolve todos vocês, ao mesmo tempo. Na presença de um Deus assim, nossos corações ternos encontram paz. 

E se você não for parente, mas conhecer parentes de pessoas no exterior, entre em contato com eles. Pergunte como estão. Mostre que você se importa. Peça sugestões concretas de como você pode ajudar. Às vezes, entrar em contato com esses parentes é a melhor maneira de servir aos trabalhadores no exterior. Contatá-los diretamente pode ser difícil. Mas mostrar às famílias que eles não foram esquecidos é um presente que jamais esquecerão. 

Que você possa sentir de forma palpável o quanto está amparada,
Lilly. 

Lilly Rivera – https://parentsofgoers.com/2026/03/21/an-open-letter-to-relatives-of-workers-in-conflict-zones/


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