quarta-feira, 1 de julho de 2026

Uwumbor Adiin (Deus ouviu!) - Ronaldo Lidório

 


Uwumbor Adiin (Deus ouviu!)

Era uma manhã bastante ensolarada e seca como de costume antes de o harmatã (vento quente e seco que vem do interior, carregando pó do Saara) soprar do Saara em direção à nossa região. Eu acordara um pouco depois das seis horas para falar ao rádio e preparar nosso café da manhã. Queria fazer isso antes que começassem a chegar as pessoas que vinham de outras aldeias para serem atendidas por Rossana, minha esposa. Apesar de ser uma enfermeira especializada apenas na área de obstetrícia, desde que chegamos, ela começou a receber todos os tipos de casos, como doenças de pele, tumores, hepatite, tuberculose, meningite e outros.

A aldeia em que morávamos, chamada Nakpai, era uma típica aldeia konkomba. Tinha mais de vinte palhoças espalhadas numa grande área seca. Três enormes árvores separavam a área das palhoças da outra, onde começavam as plantações de inhame.

Depois de preparar o café, saí para cumprimentar os anciãos que estavam embaixo da árvore mais próxima. Isso é muito importante na cultura konkomba. Sentei-me com Rossana embaixo dessa árvore. Nesse momento surgiu no meio das palhoças uma mulher que certamente não era da tribo. Sua pele negra era de um tom mais claro. Os traços do rosto eram mais finos, como os dos povos do Norte. E ela carregava um bebê nos braços, ao passo que as konkombas o amarrariam nas costas com um largo pano.

Chegando-se a nós, usou um dialeto que não conhecíamos. Por meio de gestos, fizemos com que se sentasse e então pedimos que alguém fosse chamar Keke. Ele conhecia, além de muitos dialetos, o dagbani e o hausa, línguas comuns ao norte. Quando Keke chegou, vimos que, apesar de conversar algo com ela em dagbani, não havia clareza suficiente para travarem um diálogo. Resolvemos montar uma corrente de tradução. Assim as palavras viriam do hausa, passariam para o dagbani e chegariam ao konkomba. Depois de feito isso, pudemos entendê-la:

— Sou fulani-krê e vim porque ouvi dizer que alguns accharan (forasteiros) estavam curando pessoas.

Nós nos entreolhamos perplexos. Os fulani-krês eram de uma tribo nômade ao extremo norte, do ramo fula, que viera do sul de Burquina Faso. Até então não havíamos ouvido sobre nenhum contato missionário com esse grupo. E estava ali uma fulani-krê à nossa frente. Viera exclusivamente para nos encontrar.

Logo entendemos que o bebê estava doente.

— Posso ver a criança? perguntou Rosana.

Ela tomou a menina para examinar. Devia ter uns sete meses de vida.

O quadro era terrível. O crânio se mostrava deformado por um tumor que crescia do lado esquerdo, perto da orelha. Havia outros: no lado esquerdo do tórax, vários nas costas, pernas e calcanhares. Os tumores se espalhavam por todo o corpinho dela. Estavam todos cobertos por uma secreção amarela que brotava por entre as feridas.

— Isto começou há sete alunyes (cerca de três meses). Os curandeiros não sabiam o que fazer, pois a pele rachava e uma nova ferida aparecia quase todos os dias.

Podia-se notar que a criança tinha muita dificuldade para respirar. De tão enfraquecida, seu choro era quase inaudível. Estava febril, com os olhos avermelhados, certamente devido às infecções. Aquela secreção amarela sujara o pano que a enrolava. A mulher fulani-krê dava sinais de estar bastante cansada. Devia estar várias noites sem dormir, e o percurso desde a aldeia Nakpai era bem longo.

Rossana e eu nos entreolhamos. Sabíamos que não havia condições de tratá-la ali ou de enviá-la a alguma clínica ou hospital. Também não tínhamos como realizar testes. Além disso, os medicamentos que havíamos trazido já estavam no fim. Planejávamos fazer logo uma viagem para a capital, ao sul do país, a fim de reabastecer o estoque. Enfim, estávamos numa situação melindrosa. Primeiramente pela própria necessidade física da criança, e também pela raríssima oportunidade de podermos contatar os fulani-krés, o que dava um peso extra àquela circunstância.

Foi Rossana quem tomou a palavra:

— Em geral, nós temos medicamentos que ajudam na cura das doenças mais comuns. Mas, quanto a esta doença, não estamos certos sobre as causas, não temos condições de fazer testes que nos ajudem, e também o nosso estoque de medicamentos está no fim.

A mãe olhava para baixo com uma expressão de desânimo.

— Mas há algo que não é um remédio de homens, que é mais poderoso do que tudo o que temos e que pode curar sua filha, acrescentou Rossana.

— O que é? perguntou a mulher levantando o olhar.

— Há um Deus a quem servimos, que é o Uwumbor bro (único Deus), o qual tem todo o poder até sobre nossa vida...

Passamos, assim, a descrever quem é Deus, falamos do seu amor, do seu Filho — Yesu Kristu — e da sua Palavra para os povos, inclusive para os fulani-krês. Ela ouviu atentamente. Por fim, concluímos:

— Podemos pedir a Deus que, com o poder dele, cure a sua filhinha?

Rossana então orou, deixando que cada sentença da oração fosse traduzida para a sua língua, a fim de que entendesse claramente o que pedíamos.

Aa balen aa? (Você crê?) indagou Rossana.

N nlen! (Creio!)  

Depois disso, usamos um pouquinho do mercúrio, que havíamos misturado com água para render mais, e limpamos externamente as feridas. E assim ela se levantou e se foi, com a pequena criança envolta em um outro pano, limpo.

Quatro dias se passaram desde então. Mantínhamos nossa rotina, com os dias cada vez mais cheios. Num fim de tarde, vimos mais uma vez o perfil esguio da mulher fulani-krê. Vinha para nós com um olhar perplexo, trazendo a criança envolta em um pano.

Confesso que, ao se aproximar, senti um frio no estômago, pois a criança não se mexia. Aí pensei: “Ela morreu”.

Parando à nossa frente, ela abriu um grande sorriso, desenrolou o pano e, para surpresa da minha incredulidade, ali estava aquela pequenina criança dormindo calmamente. Estava curada por completo! Não se tratava de uma melhora, de uma cura parcial ou de uma diminuição dos tumores — eles haviam desaparecido totalmente. Estávamos perplexos. Passávamos a mão por sobre o crânio e o tórax, antes deformados pelos tumores, onde se abriam feridas cobertas pela secreção amarela. E não havia mais nada; nem tumores, nem feridas, nem secreção e, o que mais me impressionou: nem cicatrizes.

Uwumbor adiin (Deus ouviu), dizia ela entre sorrisos.

 A pele havia descascado ao redor dos lugares onde antes estavam as feridas no crânio, tórax, costas, pernas e calcanhares. Logo percebemos que aquilo seria a prova para o testemunho. Foi então que uma cena inimaginável até quatro dias antes começava a acontecer, o que me convenceu de que o Senhor estava produzindo um milagre. Aquela mulher, representante dos fulani-krês, povo até então sem nenhum contato com o evangelho de Cristo, começou a andar de palhoça em palhoça naquela aldeia onde morávamos. Ela ia testemunhando do Senhor, mostrando a criança curada e dizendo a única coisa que sabia na língua konkomba: “Uwumbor adiin” (Deus ouviu). E ali estávamos nós, missionários transculturais, saídos do Brasil para fixar residência no noroeste da África. E, nesse momento, nos encontrávamos sentados embaixo de uma árvore bem em frente da aldeia konkomba, enquanto uma mulher fulani-krê testemunhava do Deus vivo ao povo para o qual fomos chamados a evangelizar.

Querido leitor, enquanto aquela mulher passava de palhoça em palhoça, sorrindo e falando de Deus, sobre o qual nem ela nem ninguém do seu povo havia ouvido até quatro dias antes, três pensamentos correram pela minha mente:

1. Há uma promessa de bênção para todos os povos da Terra;

2. Jesus está vivo e presente entre nós;

3. Deus pode fazer o impossível acontecer.

Ronaldo Lidório, no livro Missões: O desafio continua (Ed. Betânia).


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