Uwumbor Adiin
(Deus ouviu!)
Era uma
manhã bastante ensolarada e seca como de costume antes de o harmatã (vento
quente e seco que vem do interior, carregando pó do Saara) soprar do Saara em
direção à nossa região. Eu acordara um pouco depois das seis horas para falar
ao rádio e preparar nosso café da manhã. Queria fazer isso antes que começassem
a chegar as pessoas que vinham de outras aldeias para serem atendidas por
Rossana, minha esposa. Apesar de ser uma enfermeira especializada apenas na
área de obstetrícia, desde que chegamos, ela começou a receber todos os tipos
de casos, como doenças de pele, tumores, hepatite, tuberculose, meningite e
outros.
A aldeia em
que morávamos, chamada Nakpai, era uma típica aldeia konkomba. Tinha mais de
vinte palhoças espalhadas numa grande área seca. Três enormes árvores separavam
a área das palhoças da outra, onde começavam as plantações de inhame.
Depois de
preparar o café, saí para cumprimentar os anciãos que estavam embaixo da árvore
mais próxima. Isso é muito importante na cultura konkomba. Sentei-me com
Rossana embaixo dessa árvore. Nesse momento surgiu no meio das palhoças uma
mulher que certamente não era da tribo. Sua pele negra era de um tom mais
claro. Os traços do rosto eram mais finos, como os dos povos do Norte. E ela
carregava um bebê nos braços, ao passo que as konkombas o amarrariam nas costas
com um largo pano.
Chegando-se
a nós, usou um dialeto que não conhecíamos. Por meio de gestos, fizemos com que
se sentasse e então pedimos que alguém fosse chamar Keke. Ele conhecia, além de
muitos dialetos, o dagbani e o hausa, línguas comuns ao norte. Quando Keke
chegou, vimos que, apesar de conversar algo com ela em dagbani, não havia
clareza suficiente para travarem um diálogo. Resolvemos montar uma corrente de
tradução. Assim as palavras viriam do hausa, passariam para o dagbani e
chegariam ao konkomba. Depois de feito isso, pudemos entendê-la:
— Sou
fulani-krê e vim porque ouvi dizer que alguns accharan (forasteiros) estavam
curando pessoas.
Nós nos
entreolhamos perplexos. Os fulani-krês eram de uma tribo nômade ao extremo
norte, do ramo fula, que viera do sul de Burquina Faso. Até então não havíamos
ouvido sobre nenhum contato missionário com esse grupo. E estava ali uma
fulani-krê à nossa frente. Viera exclusivamente para nos encontrar.
Logo
entendemos que o bebê estava doente.
— Posso ver
a criança? perguntou Rosana.
Ela tomou a
menina para examinar. Devia ter uns sete meses de vida.
O quadro era
terrível. O crânio se mostrava deformado por um tumor que crescia do lado
esquerdo, perto da orelha. Havia outros: no lado esquerdo do tórax, vários nas
costas, pernas e calcanhares. Os tumores se espalhavam por todo o corpinho
dela. Estavam todos cobertos por uma secreção amarela que brotava por entre as
feridas.
— Isto
começou há sete alunyes (cerca de três meses). Os curandeiros não sabiam
o que fazer, pois a pele rachava e uma nova ferida aparecia quase todos os
dias.
Podia-se
notar que a criança tinha muita dificuldade para respirar. De tão enfraquecida,
seu choro era quase inaudível. Estava febril, com os olhos avermelhados,
certamente devido às infecções. Aquela secreção amarela sujara o pano que a
enrolava. A mulher fulani-krê dava sinais de estar bastante cansada. Devia
estar várias noites sem dormir, e o percurso desde a aldeia Nakpai era bem
longo.
Rossana e eu
nos entreolhamos. Sabíamos que não havia condições de tratá-la ali ou de
enviá-la a alguma clínica ou hospital. Também não tínhamos como realizar
testes. Além disso, os medicamentos que havíamos trazido já estavam no fim. Planejávamos
fazer logo uma viagem para a capital, ao sul do país, a fim de reabastecer o
estoque. Enfim, estávamos numa situação melindrosa. Primeiramente pela própria
necessidade física da criança, e também pela raríssima oportunidade de podermos
contatar os fulani-krés, o que dava um peso extra àquela circunstância.
Foi Rossana
quem tomou a palavra:
— Em geral,
nós temos medicamentos que ajudam na cura das doenças mais comuns. Mas, quanto
a esta doença, não estamos certos sobre as causas, não temos condições de fazer
testes que nos ajudem, e também o nosso estoque de medicamentos está no fim.
A mãe olhava
para baixo com uma expressão de desânimo.
— Mas há
algo que não é um remédio de homens, que é mais poderoso do que tudo o que
temos e que pode curar sua filha, acrescentou Rossana.
— O que é?
perguntou a mulher levantando o olhar.
— Há um Deus
a quem servimos, que é o Uwumbor bro (único Deus), o qual tem todo o
poder até sobre nossa vida...
Passamos,
assim, a descrever quem é Deus, falamos do seu amor, do seu Filho — Yesu
Kristu — e da sua Palavra para os povos, inclusive para os fulani-krês. Ela
ouviu atentamente. Por fim, concluímos:
— Podemos
pedir a Deus que, com o poder dele, cure a sua filhinha?
Rossana
então orou, deixando que cada sentença da oração fosse traduzida para a sua
língua, a fim de que entendesse claramente o que pedíamos.
— Aa balen
aa? (Você crê?) indagou Rossana.
— N nlen!
(Creio!)
Depois
disso, usamos um pouquinho do mercúrio, que havíamos misturado com água para
render mais, e limpamos externamente as feridas. E assim ela se levantou e se
foi, com a pequena criança envolta em um outro pano, limpo.
Quatro dias
se passaram desde então. Mantínhamos nossa rotina, com os dias cada vez mais
cheios. Num fim de tarde, vimos mais uma vez o perfil esguio da mulher
fulani-krê. Vinha para nós com um olhar perplexo, trazendo a criança envolta em
um pano.
Confesso
que, ao se aproximar, senti um frio no estômago, pois a criança não se mexia.
Aí pensei: “Ela morreu”.
Parando à
nossa frente, ela abriu um grande sorriso, desenrolou o pano e, para surpresa
da minha incredulidade, ali estava aquela pequenina criança dormindo
calmamente. Estava curada por completo! Não se tratava de uma melhora, de uma
cura parcial ou de uma diminuição dos tumores — eles haviam desaparecido
totalmente. Estávamos perplexos. Passávamos a mão por sobre o crânio e o tórax,
antes deformados pelos tumores, onde se abriam feridas cobertas pela secreção
amarela. E não havia mais nada; nem tumores, nem feridas, nem secreção e, o que
mais me impressionou: nem cicatrizes.
— Uwumbor
adiin (Deus ouviu), dizia ela entre sorrisos.
A pele havia descascado ao redor dos lugares
onde antes estavam as feridas no crânio, tórax, costas, pernas e calcanhares.
Logo percebemos que aquilo seria a prova para o testemunho. Foi então que uma
cena inimaginável até quatro dias antes começava a acontecer, o que me
convenceu de que o Senhor estava produzindo um milagre. Aquela mulher,
representante dos fulani-krês, povo até então sem nenhum contato com o
evangelho de Cristo, começou a andar de palhoça em palhoça naquela aldeia onde
morávamos. Ela ia testemunhando do Senhor, mostrando a criança curada e dizendo
a única coisa que sabia na língua konkomba: “Uwumbor adiin” (Deus
ouviu). E ali estávamos nós, missionários transculturais, saídos do Brasil para
fixar residência no noroeste da África. E, nesse momento, nos encontrávamos
sentados embaixo de uma árvore bem em frente da aldeia konkomba, enquanto uma
mulher fulani-krê testemunhava do Deus vivo ao povo para o qual fomos chamados
a evangelizar.
Querido
leitor, enquanto aquela mulher passava de palhoça em palhoça, sorrindo e
falando de Deus, sobre o qual nem ela nem ninguém do seu povo havia ouvido até
quatro dias antes, três pensamentos correram pela minha mente:
1. Há uma
promessa de bênção para todos os povos da Terra;
2. Jesus
está vivo e presente entre nós;
3. Deus pode
fazer o impossível acontecer.
Ronaldo Lidório, no livro Missões: O desafio
continua (Ed. Betânia).

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